Festival do Rio 2018 #9: 'Beale Street', 'Amanda', 'White Boy Rick'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

15) Se a rua Beale falasse (If Beale Street could talk, EUA, 2018), direção: Barry Jenkins
(Foto: Divulgação)
Depois do fenômeno "Moonlight", Barry Jenkins retoma a investigação sobre a comunidade negra nos Estados Unidos, desta vez através de um caso de prisão injusta e assédio policial. E quando uso a palavra "caso" pode parecer um evento isolado, mas a realidade está muito mais perto do contrário: o que deveria ser exceção se tornou a regra. Jenkins opta por uma narrativa controlada, em dois tempos, que busca nos mostrar o envolvimento do casal principal e seus esforços para desfazer a condenação falsa que os separaram. A montagem de Joi Mcmillon e Nat Sanders, parceiros habituais do diretor, salta bem entre as linhas temporais, contribuindo para nossa percepção cada vez maior do sofrimento e dos dilemas dos personagens. A beleza do filme é conseguir transmitir urgência sem soar melodramático ou bombástico, de forma que quando vemos acontecimentos mais marcantes, eles passam o devido impacto justamente pelo contraste. Sem revelar o momento exato da prisão ou sequer um vislumbre de justiça, "Se a rua Beale falasse" encontra a trágica verdade que espera muitos jovens afro-americanos das periferias do país. A mesma encontrada pelo documentário "A 13º Emenda" e tantos outros filmes sobre o tema. Pelo andar da carruagem, o cinema ainda vai ter que se dedicar a denunciar essas barbáries por muitos anos. Nota: 4/5 (Muito Bom)

16) Amanda (idem, França, 2018), direção: Mikhaël Hers
(Foto: Divulgação)
"Amanda" poderia ser apenas uma historinha familiar que já despertaria interesse o suficiente no espectador, tamanha sua doçura e leveza. Mas por trás do rostinho encantador da menininha do título existe uma tragédia horrível, cuja inspiração provavelmente vem de alguns dos recentes atentados ocorridos em Paris e na Europa como um todo. Desta forma, ao perder a mãe, Amanda se vê obrigada a morar com o tio: um rapaz que nunca demonstrou a capacidade ou desejo de cuidar de uma criança. A partir daí que o conflito principal do roteiro se desenvolve, procurando encontrar o ponto de entendimento entre duas pessoas de luto que vão precisar uma da outra mais do que nunca. O diretor e roteirista Mikhaël Hers acerta ao investir em pequenas passagens de cicatrizações, preferindo a melancolia à tristeza. Vemos então uma trama de cura e reconstrução familiar, feita com muita delicadeza e respeito aos sentimentos de cada um. O paralelo entre uma fala da mãe falecida, com uma partida de tênis bem ao final da projeção e o próprio futuro dos personagens é um acerto afetuoso, que só joga mais amor neste filme e nestas pessoas que já queremos abraçar. Nota: 5/5 (Excelente)

17) White Boy Rick (Estados Unidos, 2018), direção: Yann Demange
(Foto: Divulgação)
Confesso que Matthew McConaughey é um ator que hoje em dia me fisga para qualquer produto. Neste "White Boy Rick" ele não ganha tanto o protagonismo que (sempre) merece, mas aparece o suficiente para deixar sua marca. Já o filme em si, não consegue se livrar de algumas falhas incômodas, embora conte a trama com razoável eficiência. Existem muitos pontos positivos, como o excelente elenco, os diálogos naturalistas e a fotografia triste que reflete o mundo dos personagens, entretanto algo no projeto soa errado e, por conta disto, ele não engata. A narrativa fria e cheia de conveniências (como a filha e os pais de McConaughey) é parte do problema, de forma que o drama do protagonista acaba enfraquecido. Em complemento, não consigo deixar de sentir a balança desequilibrada entre alguns personagens. Aqui ou ali o roteiro lança questionamentos apropriados, como as indiretas sobre a realidade criminal americana, mas logo esquece das mesmas para continuar a história principal (que honestamente é a menos relevante). E quando a gente começa a se interessar mais pelas figuras coadjuvantes sem que seja a intenção dos realizadores, normalmente quer dizer que tem alguma coisa errada. Nota: 3/5 (Bom)

18) O Caravaggio Roubado (Una Storia Senza Nome, Itália, 2018), direção: Roberto Andó
(Foto: Divulgação)
"O Caravaggio Roubado" é uma obra bobinha e esvaziada de profundidade emocional, mas tem seu charme como entretenimento despretensioso. Não há muito o que dizer por aqui: personagens unidimensionais, reviravoltas rocambolescas e traminha que parece um sub-Dan Brown. O que salva é o bom humor, quando o filme reconhece seu próprio absurdo. Dá pra divertir por duas horas e depois jogar no limbo da mente, nada mais que isso. Nota: 3/5 (Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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