Festival do Rio 2018 #7: 'Assunto de Família' e 'Tinta Bruta'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

12) Assunto de Família (Manbiki Kazoku, Japão, 2018), direção: Hirokazu Koreeda
(Foto: Divulgação)
Em certo momento uma mulher abraça uma menininha quase desconhecida e a ensina pela primeira vez o que é carinho. Em outro, uma senhora olha para sua família brincando junta na praia. Esses são apenas dois instantes de "Assunto de Família", novo projeto de Hirokazu Koreeda, atual vencedor da Palma de Ouro em Cannes.
E por que ambos são tão importantes? Porque resumem uma história cheia de afeto, ternura e amor. O cineasta japonês sempre teve uma habilidade especial em mostrar relações humanas, mas neste filme ele se supera sabendo alternar com maestria entre o cômico, a doçura e o trágico. Em complemento, tem a coragem de inserir uma reviravolta drástica que não só surpreende imensamente, como começa a colocar dúvidas sobre os personagens que estávamos aprendendo a amar. Esta é a parte mais fascinante do roteiro: nos estimular a refletir sobre nossas concepções de família e os limites para o amor. 
Eu, na eterna tentativa de achar o refúgio na arte, optei pelo caminho mais otimista e encontrei nas telas as redenções que eu precisava. O filme em si pode não dar nenhuma resposta clara, mas entrega o suficiente para criar um redemoinho de emoções e questionamentos dentro de nós. Independente de qualquer coisa, "Assunto de Família" é uma preciosidade, pra não dizer obra-prima, dessas que acho que nunca mais vou esquecer. Nota: 5/5 (Excelente)

13) Tinta Bruta (idem, Brasil, 2018), direção: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
(Foto: Divulgação)
Cidade cinza, cenários escuros e constante escuridão: a fotografia de "Tinta Bruta" já diz tudo que precisamos saber sobre seu universo. O protagonista é um rapaz triste, com enormes cicatrizes e dono de uma solidão tremenda. Filipe Matzembacher e Márcio Reolon optam por estudá-lo através de seus silêncios internos e por todos que o deixaram pelo caminho: a irmã, o amor e parte de si mesmo.
A beleza da narrativa da dupla gaúcha é entender os dilemas do personagem sem explicações expositivas ou flashbacks intrusivos. Pelo contrário, quando os mesmos surgem, lembram mais vislumbres de pesadelos do que uma exposição gratuita. Por conta disso, observar as evoluções de cada figura em cena se torna tão fascinante: conhecemos intimamente cada uma delas, em especial Pedro, Leo e seus respectivos alter egos. O contraste da relação entre eles é um dos pontos altos do filme: entre os avatares só vemos neon, luzes e tintas, entre os humanos sobram silêncio, entendimento e carinho. O plano final, pra não dizer a sequência como um todo, traz a liga de tudo que o roteiro vinha trabalhando nas duas horas anteriores. A dança do protagonista é um alívio, mas também a libertação de muitos demônios passados que antes a tornavam impossível. Nota: 4/5 (Muito Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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