Festival do Rio 2018 #3: 'O Peso do Passado' e 'Deslembro'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

7) O Peso do Passado (Destroyer, EUA, 2018), direção: Karyn Kusama
(Foto: Divulgação)
Nicole Kidman tem um belo histórico de se transformar em papéis, mas acho que nunca num nível tão extremo quanto neste novo projeto. Sua transformação corporal e vocal é a força motriz de "O Peso do Passado", que depende primordialmente da caracterização cansada e envelhecida para a protagonista funcionar. Em torno dela, o roteiro desenvolve um thriller criminal seco que, ao se misturar com uma complexa história de vingança, não tem medo de investir na brutalidade física e emocional. A narrativa equilibra bem a trama principal com os problemas pessoais da personagem de Kidman, sem ocasionar excessos ou melodramas acidentais. Pelo contrário, o controle no filme é absoluto, a ponto de quase ditar nossa respiração em momentos de tensão. Embora a reviravolta seja surpreendente, ela também soa meio dispensável. Mas nada que atrapalhe o resultado final. Nota: 4/5 (Muito Bom)

8) Deslembro (idem, Brasil, 2018), direção: Flavia Castro
(Foto: Divulgação)
O cinema nacional é um grande contribuidor para a memória e a conscientização em torno da ditadura militar do país, um papel que o estado historicamente não soube (ou não quis) cumprir. Nossa filmografia é permeada por obras melancólicas e trágicas sobre este período tão brutal que até hoje tentamos entender. "Deslembro" é mais um filme neste movimento, com o diferencial de buscar um estudo não nas vítimas diretas dos crimes dos militares, mas em seus descentes e como os mesmos lidam com as lembranças de seus entes queridos. Neste sentido, a diretora Flavia Castro opta por focar sua narrativa numa menina, filha de pai assassinado e mãe exilada, que é obrigada a enfrentar sua história pela primeira vez ao retornar ao Brasil. A beleza do projeto é se prender na jovem protagonista (Jeanne Boudier, uma revelação), trazendo sempre seu ponto de vista sobre o país, seu passado e o legado da própria família. Desta forma, não entramos tanto a fundo em temas diretamente políticos, mas temos a oportunidade de ver os vislumbres da redemocratização através dos olhos de uma adolescente que ainda tenta entender o que é, e de onde vem, a sua dor. E o fato de "Deslembro" soar hoje em dia mais como uma premonição do que como uma ferida em processo de cicatrização talvez seja a parte mais triste de tudo isso. Enfim, que o cinema brasileiro continue a ser este agente histórico importante, para jamais deixarmos certas coisas se repetirem. Nota: 4/5 (Muito Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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