'Três Anúncios Para um Crime': justiça como ódio e vingança

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Três Anúncios Para um Crime", Direção: Martin McDonagh (Foto: Divulgação - Fox Film do Brasil)
Martin McDonagh é um sujeito que venho acompanhando faz alguns anos. Talentoso para roteiros irônicos e cheios de bizarrices, foi responsável por duas produções que adoro: "Na Mira do Chefe", que lhe rendeu indicação ao Oscar, e "Sete Psicopatas e um Shih Tzu". Ambos extremamente divertidos, deliciosos de ver e impregnados de um humor negro muito particular. O que nos faz chegar em "Três Anúncios Para um Crime".

Esse seu novo projeto pouco lembra os dois anteriores, a ponto de me assustar pertencer ao mesmo roteirista. Sim, alguns pequenos pontos em comum podem ser encontrados, principalmente na personalidade forte e "engraçada" (na falta de uma palavra melhor) da personagem de Frances McDormand (Mildred), mas não passa disso: leves vislumbres. Porque no tom e teor da trama, os três filmes não poderiam ser mais diferentes. McDonagh joga de lado todo o clima de "gozação" que estava acostumado, para investir numa trajetória de dor, ódio e vingança.

(Foto: Divulgação - Fox Film do Brasil)
Aliás, mais do que investir, diria que o cineasta está interessado em investigar a condição do luto que se transforma em sede de justiça. A situação é clara e trágica: uma mulher que teve a filha assassinada e não conseguiu achar o criminoso. A partir daí, o roteiro vai nos guiando em como a protagonista lida com sua perda, os motivos por trás dos 'três anúncios' do título, e como os demais coadjuvantes encaram suas atitudes. Neste ponto somos apresentados a vários personagens que enriquecem imensamente a narrativa, como os policiais vividos por Sam Rockwell (Dixon) e Woody Harrelson (Willoughby), ambos multidimensionais e complexos.

O mais fascinante do filme é explorar as conexões humanas, sem fazer julgamento de valor ou buscar redenções forçadas. Portanto, Mildred e Dixon podem ser pessoas completamente diferentes, mas a situação os fazem aliados: o luto que virou vingança de uma, o ódio retraído de outro. É um estudo sóbrio e duro sobre uma situação que de certa forma nos surpreende. Não é comum o cinema americano abrir mão de ciclos se fechando, clímax bombásticos e a salvação no final. Ver McDonagh optar por uma trama tão pesada e cheia de possíveis armadilhas com tamanha disciplina é um tanto prazeroso. 

Seu único tropeço é na quantidade excessiva de personagens. Se por um lado os policiais são necessários e bem utilizados, por outro, o padre, a amiga de Mildred, o interesse romântico (desperdício de Peter Dinklage), o ex-marido e a namoradinha, o filho e até o 'suspeito' do assassinato não dizem muito ao que vieram. Este último, inclusive, parece inserido ali só para fazer a trama andar, visto que aparece apenas em dois momentos chaves, que estariam sem solução sem sua presença. Mas também não é nada que faça o filme desabar, pelo contrário, o roteiro é sólido o suficiente para se safar dos excessos pontuais. 

Martin McDonagh é realmente um cineasta a se observar e sua Mildred, na pele da maravilhosa Frances McDormand, tem tudo para se tornar uma dessas personagens que viram símbolo de uma temporada. Não se surpreendam com os memes, porque é uma fala melhor que a outra e a atriz as profere como ninguém. 

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5027774
- Distribuidora: Fox Filme do Brasil

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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