'Trama Fantasma': o intoxicante mundo de Paul Thomas Anderson

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Trama Fantasma", Direção: Paul Thomas Anderson (Foto: Laurie Sparham/Divulgação - Universal Pictures)
Se tem um elogio que se pode fazer a Paul Thomas Anderson é sua habilidade em criar realidades fascinantes. Navegar por seus filmes normalmente envolve momentos de descobrimento, desconforto, dúvidas e, por fim, aceitação. "Magnólia", "O Mestre", "Sangue Negro", todos donos de passagens ímpares que fisgam os espectadores e os fazem consumi-los como uma droga. Pra mim, essa é a sensação.

"Trama Fantasma" repete a dose, sem tirar nem por. A roupagem realista (e diria, simples) parece flertar com um caminho mais fácil, mas em poucos minutos a trama vai se revelando e expõe seu lado doentio. A relação entre Woodcock (Daniel Day-Lewis) e Alma (Vicky Krieps), ponto chave da história, serve de quadro em branco para o diretor costurar uma trajetória de relações de poder, dominância e independência. Temas que se mostram mais que apropriados para sua filmografia.

(Foto: Divulgação - Universal Pictures)
O cineasta apresenta a personagem Alma como uma mocinha quase indefesa, para aos poucos indicar seu amadurecimento e compreensão do que está vivenciando. De dominada, passa a dona da situação. Assim como a maravilhosa Cyril de Lesley Manville, que surge em cena como uma executora sem vida subordinada a Woodcock, para logo adiante demonstrar o real poder e segurança dentro de si. O admirável no texto é a constante dúvida que nos submete das reais intenções dos personagens, uma vez que somos frequentemente levados a supor diferentes finalidades em seus atos. Isto torna o filme um exercício paralelo de envolvimento e agonia, que o enrique imensamente.

Se não bastasse o talento como roteirista, Anderson também volta a comprovar porque é um dos maiores diretores vivos da atualidade. Sua concepção é meticulosamente calculada, repleta de momentos inspirados. Reparem, por exemplo, na mixagem que estoura alguns barulhos prosaicos, como o ranger dos talheres, com intuito de mostrar o desconforto do protagonista por certas frivolidades. A informação é passada exclusivamente pelo som, sem recorrer a exposição exagerada. O mesmo acontece na bela sequência que culmina na conversa entre Woodcock e Cyril, um instante de peso dramático que é encenado com extrema economia narrativa, sem jamais perder o conteúdo e carga emocional. 

Mas não daria para terminar este texto, sem falar de Daniel Day-Lewis. Um ator fabuloso, provavelmente o melhor da sua geração, que seria capaz de transformar qualquer comercial de alvejante em verdadeiras obras-primas. Nas mãos de Paul Thomas Anderson, com seu roteiro fabuloso, eleva "Trama Fantasma" a um filme impecável, que se destaca mesmo numa das filmografias mais ricas da Hollywood moderna. A crítica que posso fazer ao ator é sua insistência em dizer que vai se aposentar. Promovam vaquinhas, passem leis de trabalho forçado, mas só não permitam que esse homem um dia pare de fazer cinema. Sinceramente, não quero viver num mundo em que Daniel Day-Lewis não atua mais.

Nota: 5/5 (Excelente)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5776858
- Distribuição: Universal Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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