'Pantera Negra': o nascimento de uma nação e um herói

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Pantera Negra", Direção: Ryan Coogler (Foto: Divulgação - Disney/Marvel Studios)
Faz alguns anos que entrar num filme de super-heróis deixou de ser novidade e se tornou quase a zona de conforto para o público nerd, quiça casual. Por mais divertido que seja, este "subgênero" de ação nunca foi muito agente de transformações de linguagem ou temática, salvo exceções bem pontuais. A verdade é que os produtores e estúdios especializados neste nicho sempre preferiram apostar no formato mais cauteloso, entregando produtos seguros, inofensivos e semelhantes entre si. 

Felizmente, em 2017, começaram a surgir algumas tentativas que, enfim, destoaram do histórico do cinema de super-heróis. Como apontei nas duas críticas, "Logan" e "Mulher-Maravilha" tiveram a capacidade de levar o espectador para um lugar diferente dentro de seus respectivos universos e do próprio "subgênero" que fazem parte. "Pantera Negra" dá continuidade a esta onda, se destacando como um dos filmes mais fora da curva do Marvel Studios e certamente o mais pessoal de todos.

A Marvel tem padrões de qualidade e cuidado com seus personagens que são admiráveis, de forma que raramente suas obras não entregam um mínimo de diversão e entretenimento, aliados a processos criativos apurados e de bom gosto. Entretanto, é fato que seus projetos são todos muito parecidos e os interesses do "Universo Cinematográfico" são muito maiores que os desejos artísticos dos cineastas ou mesmo que as necessidades de cada história. "Pantera Negra" é o primeiro a romper de modo mais acentuado com a fórmula do estúdio, demonstrando estilo próprio, temas políticos específicos e uma trama quase independente da história dos Vingadores. 

Ryan Coogler, responsável pelo excepcional "Creed: Nascido para Lutar", se mostra a escolha perfeita para comandar o projeto. Dono de um apuro visual impecável e acostumado a temas sociais, o diretor transforma o personagem Pantera Negra num estudo das raízes culturais afro-americanas, assim como busca o espaço dos super-heróis dentro de uma esfera de sociedade muito distante da que o cinema costuma mostrar. Ao seu próprio modo, consegue driblar a fórmula Marvel e fazer um filme muito condizente com sua filmografia e tudo que vem debatendo desde sua estreia em longas-metragens, com o também maravilhoso "Fruitvale Station". 

(Foto: Divulgação - Disney/Marvel Studios)
Se Wakanda é um desbunde para os olhos e um ambiente tão incomum na grande Hollywood, não é só por causa dos ótimos efeitos visuais. Coogler teve a sensibilidade de chamar profissionais improváveis para seu time criativo, todos oriundos do cinema independente americano, que conseguem dar um ar novo e fascinante para o reino de T'Challa. O fato de que a maioria dos cabeças de equipe também já fizeram outras produções com temáticas raciais e sociais não é coincidência nenhuma: por exemplo, a fotógrafa Rachel Morrison foi responsável por "Mudbound", a designer de produção Hannah Beachler por, vejam só, "Moonlight" e a figurinista Ruth E. Carter por "Malcom X" e "Amistad", pelos quais foi indicada ao Oscar. Tenham certeza que foi tudo pensado, parte da concepção cuidadosa e apurada de Coogler. 

Porque "Pantera Negra" é antes de tudo uma obra de protesto. Desde os primórdios dos quadrinhos até a adaptação cinematográfica, faz parte do seu cânone e de sua própria existência. Criticar o lado político do filme, é criticar o Superman por ser kryptoniano ou o Peter Parker por ser nerd. A beleza do roteiro de Ryan Coogler é conseguir ser político de forma explícita, porém ao mesmo tempo sutil. As questões que levanta fazem parte da narrativa, sem jamais prejudicá-la ou tirar sua fluidez. Pelo contrário, a enriquece e dá força aos dilemas dos personagens. O diretor também se revela confortável com o cinema de ação, mostrando coreografias de batalhas e perseguições bem claras e inventivas, que remetem desde o blaxploitation até os filmes de artes marciais de Hong Kong.

Se tivesse que apontar um pecado em "Pantera Negra" é o pouco tempo que dedica às ruas de Wakanda. Vemos muito de sua cúpula, mas pouco das engrenagens do país e de sua cultura urbana. Fora isso, até no vilão, velho problema do Marvel Studios, o filme consegue acertar. O Erik Killmonger de Michael B. Jordan é um personagem complexo, trágico e com motivações respeitáveis. Sua cena final revela uma dor interna angustiante, além de forçar um exercício de empatia magnífico no espectador. 

Que Hollywood continue investindo em projetos plurais e únicos como este, dando cada vez mais espaços a T'Challas, Finns, Dianas, Sams, Reys, Ororos e Moanas, assim como Tonys, Peters, Steves e Lukes sempre tiveram. Não é questão de "vitimismo" ou "ditadura do politicamente correto", como muitos atribuem por ignorância, preguiça de pensar (ou mau-caratismo), e sim de humanidade básica, desejo de representatividade e um mundo artístico mais diverso. Ter problema com isso talvez revele mais coisas sobre as pessoas e suas vidas fúteis do que sobre as obras em si.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt1825683
- Distribuidora: Disney

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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