'A Forma da Água': sobre comunicação e ternura

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"A Forma da Água", Direção: Guillermo del Toro (Foto: Kerry Hayes / Fox Film do Brasil)
Guillermo Del Toro é mesmo um sujeito fascinante. Nascido no México, faz parte da geração de ouro do cinema do país, que inclui Alfonso Cuarón, Guillermo Arriaga, Rodrigo Prieto e Alejandro González Iñárritu. 20 anos atrás seus nomes poderiam não ter muita relevância, mas hoje transitam no time A de Hollywood, sempre com grandes projetos e lembrados nas principais premiações.

Se tem uma coisa que me admira neste grupo é capacidade que eles tem de se envolverem em jornadas complexas e grandiosas ("Gravidade", "Birdman", "Círculo de Fogo", etc), trazendo inovação, identidade e qualidade artística em quase todos os filmes que colocam as mãos. Del Toro, em particular, sempre teve uma pegada de explorar universos, desafiar convenções e entregar um produto único, com sinais aparentes de suas marcas registradas. Se em anos anteriores isso significou uma certa restrição de público, em 2017 com "A Forma da Água" ele encontrou o equilíbrio perfeito entre seu cinema pessoal e um projeto de fácil aceitação.

Na camada externa, o roteiro de Vanessa Taylor e do próprio Del Toro revela uma história de amor bem acessível, cheia de coração e momentos de fácil envolvimento. Embora não fuja da fórmula de "pessoas" de mundos diferentes que se apaixonam, o texto é construído com muita ternura e delicadeza, o que nos faz sentir carinho enorme pelas figuras que vemos na tela, seja a protagonista vivida por Sally Hawkins, o pintor homossexual de Richard Jenkins ou qualquer outro dos ótimos coadjuvantes de luxo (como Michael Stuhlbarg e a sempre maravilhosa Octavia Spencer). 

(Foto: Divulgação / Fox Filme do Brasil)
Já na camada mais interna, a roteirista e o diretor buscam uma reflexão em torno da comunicação e nossa capacidade de entendimento. Hawkins, claro, é muda e se sente incompleta por não poder falar. Enquanto Jenkins é um artista que não consegue mais se expressar através de suas pinturas ou se quer confessar pra alguém seu amor. E, obviamente, a criatura não pertence ao nosso mundo, de maneira que desconhece nossos meios de interação. Em paralelo, o próprio vilão vivido por Michael Shannon, embora seja problemático como comentarei mais abaixo, mostra uma dificuldade enorme em conversar com a família e a própria esposa, a ponto de só estabelecer laços com ela se a mesma permanecer calada. A grande diferença entre os opostos que o filme apresenta é justamente a presença da arte. Se por um lado o antagonista é um homem bruto, sem nenhum aspecto criativo na vida, por outro a protagonista, o artista e a criatura se conectam através da arte. Os musicais unem as tardes de Elisa e Giles, ao mesmo tempo que ela e a criatura se conhecem através da música e da expressão corporal. Aliás, ambos encontram refúgio no cinema, seja na imaginação da moça ou na exibição de um clássico de época, que a criatura assiste com olhos de profunda admiração. 

A temática de auto-exaltação pode soar um pouco cínico, mas é feita com tamanho encanto e harmonia que funciona muito bem. Não é à toa o reconhecimento extenso que o filme está recebendo nas premiações, afinal o que Hollywood mais ama é cinema sobre cinema. "O Artista", de 2011, está ai para contar história. Outra obra sobre comunicação, onde se exalta a sétima arte, a indústria e o fazer cinematográfico. Quando vemos a sequência musical na cabeça de Elisa (que tem nome quase igual a da protagonista de "My Fair Lady", clássico do gênero), parece a cartada milimetricamente calculada de Del Toro de arrebatar o amor de seus colegas de profissão. E bem, funciona, tanto para narrativa quanto para o fim de ganhar múltiplas indicações. Mais uma vez: comunicação. Neste caso, de um diretor que sabe muito bem pra quem e de que forma ele precisa falar. 

Mas não entendam como uma crítica, "A Forma da Água" é um projeto cheio de méritos, bastante acessível e ao mesmo tempo dono de uma assinatura muito pessoal. Só não se destaca no seu vilão, um personagem ridiculamente caricatural, muito dissonante dos demais, que desperdiça um ótimo ator (Shannon). Vejam como tudo que o envolve é uma caricatura: ofende afro-americanos, homossexuais e coreanos, possui uma trilha grave e soturna, dispara grosserias e, claro, tem dois dedos podres. Consigo entender a intenção, mas parece uma solução pobre demais para um roteiro que se mostrava impecável em todos os outros aspectos.

Apesar deste pequeno tropeço, Del Toro entende como ninguém a necessidade do material que tem em mãos. Seu olhar melancólico e ao mesmo tempo doce de sua protagonista é um respiro de ternura e nos ajuda a estabelecer muito rápido uma conexão com o filme. As 13 indicações ao Oscar são mais do que merecidas, por consagrar um diretor muito talentoso que aprendeu a dominar um mercado mesmo fora de sua língua materna, num país reconhecido pelo preconceito por seus compatriotas. Ter encontrado sua voz também através da arte não é nenhuma coincidência.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5580390
- Distribuidora: Fox Filme do Brasil

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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