'Me Chame pelo Seu Nome': paixão entre silêncios e afeto

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Me Chame pelo Seu Nome", Direção: Luca Guadagnino (Foto: Sony Pictures/Divulgação)
O conceito de "romance" enquanto gênero cinematográfico tem inúmeras vertentes, sendo talvez a mais conhecida a das "comédias-românticas" americanas, características da filmografia do país. "Me Chame pelo Seu Nome", co-produção entre Itália, França, Estados Unidos e Brasil, não poderia estar mais distante desta ideia, se apresentando como uma obra completamente fora da curva dentro da sua categoria.

Não por conta do seu conteúdo ou orientação sexual de seus personagens. Mas por sua narrativa pausada, sem momentos de explosões e disciplinada o suficiente para jamais flertar com o melodrama. O roteiro do veterano James Ivory busca a interação dos personagens e como gradualmente os mesmos vão se envolvendo e mudando suas percepções uns dos outros. A trama em si é tênue, quase imperceptível, de certa forma irrelevante. Coisas acontecem, pessoas vão e voltam, mas Ivory deixa tudo em segundo plano, tentando achar um recorte pessoal e íntimo daquele verão de 1983 no norte da Itália.

(Foto: Sony Pictures/Divulgação)
Em harmonia com o texto que tem em mãos, Luca Guadagnino opta por uma abordagem de observação, com planos longos e semi-estáticos, como se não quisesse que sua presença fosse notada. Este tipo de decupagem combina muito com o projeto, dando força às belas atuações, aos diálogos bem construídos e até à fotografia sempre viva e colorida. Por ser um projeto com poucas viradas ou movimentos grandes na trama, "Me Chame pelo Seu Nome" depende imensamente dos pequenos momentos, como uma troca de olhares, leves alterações nas falas e mesmo silêncios cronometrados. Estes breves gestos vão estabelecendo a crescente paixão entre os protagonistas de forma natural e romântica, sem jamais soar apressada e muito menos artificial.

O filme cai aqui e ali em algumas passagens redundantes, o que resulta numa duração um pouco além do necessário. Guadagnino parece ter se deslumbrado demais com aquele ambiente e se deixou perder em tangentes que pouco acrescentam. Felizmente, já perto dos minutos finais, o cineasta acha o caminho de volta e entrega uma cena absolutamente fabulosa entre dois de seus personagens, com destaque absoluto para Michael Stuhlbarg, dono de um monólogo arrebatador que mistura entendimento, ternura e orgulho. 

O maior acerto do diretor e seu roteirista é entender a natureza romântica do projeto, tornando-a natural, lúdica e afetuosa. Afinal não estamos diante de uma obra de problematização, debate de sexualidade ou tragédias de preconceito. "Me Chame pelo Seu Nome" é antes de tudo uma história de amor entre duas pessoas que se desejam profundamente. Ver problema com isso por conta de gênero, talvez seja mais falha do espectador do que do filme em si.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5726616
- Distribuição: Sony Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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