'Star Wars: Os Últimos Jedi': entre ciclos, memórias e recomeços

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Star Wars: Os Últimos Jedi", Direção: Rian Johnson (Foto: Divulgação - Lucasfilm / Disney)
É impossível falar de Star Wars sem o fator emocional. Deixo já bem claro antes de qualquer coisa, caso alguém tenha chegado aqui esperando um texto sóbrio e isento. Não vai ser o caso, afinal são 20 anos vivendo essa saga, duas décadas de amor, ódio, alegria e raiva. "Guerra nas Estrelas", como a conheci em 1997, não é apenas um filme, mas um movimento cultural que me trouxe amigos, memórias e a própria paixão por cinema. Portanto peço licença por recorrer à primeira pessoa e falar de "Star Wars: Os Últimos Jedi" de uma forma um pouco mais pessoal que o normal.

Assistir o "Despertar da Força" em 2015 foi um êxtase. Depois da trilogia nova (que hoje faz mais sentido chamar de "prequel"), o ânimo de qualquer fã da saga estava bem por baixo. Não são grandes filmes, mas pior que isso, não são bons Star Wars. O título está lá, mas a sensação de reconhecimento não existe. Os Episódios 1 a 3 trazem um sentimento estranho de ver tantas coisas queridas sem contexto ou ressignificadas da pior maneira possível. Com a entrada de J.J. Abrams, Kathleen Kennedy e seu "grupo de roteiristas", o panorama tomou um rumo inesperado e muito bem-vindo. Há quem questione a exclusão de clássicos do universo expandido do cânone oficial, mas o fato é que a Disney reviveu e organizou Star Wars como poucos poderiam esperar. "Despertar" e "Rogue One" trouxeram figuras que nós amamos e o universo fabuloso de George Lucas com o mesmo cheiro, o mesmo calor e magia presentes em "Uma Nova Esperança", de um jeito que o próprio criador parecia ter se tornado incapaz de fazer.

Portanto, é com muita alegria que assisti o Episódio VIII e pude presenciar mais um grande filme, que não só funciona como obra independente, como grita Star Wars, reverencia a trilogia clássica e ainda consegue apontar para o futuro. Porque "Os Últimos Jedi" é afinal de contas uma passagem de bastão, desta vez definitiva. A cada segundo de filme, Rian Johnson parece se esforçar em nos dizer para aproveitar cada momento com Luke, Leia e Chewie. Não pude deixar de sentir que estava prestes a ver alguns de meus velhos amigos pela última vez. E aqui entra a grande responsabilidade do diretor e seu elenco encabeçado por Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac e Adam Driver: levar Star Wars adiante e carregar nos ombros um legado de mais de 40 anos. Mesmo com esta missão quase impossível, o filme se sai muito bem, mostrando novas ideias ao mesmo tempo que desperta lembranças tão bonitas.

(Foto: Divulgação - Lucasfilme / Disney) 
Evidente que o filme não é perfeito, voltando a demonstrar alguns furos de roteiro que o anterior já tinha. Desta forma fica faltando um pouco de contexto ao Líder Snoke, ao cenário político da galáxia e até à própria história da Rey. Imagino que muitas destas respostas estarão no Episódio IX ou em alguma obra literária, afinal não podemos esquecer que Star Wars tem toda uma franquia midiática para abastecer, mas não deixa de ser uma escolha que tem seu preço. Entretanto, não são problemas que cheguem a comprometer o projeto. Johnson pode pecar um pouco no excesso de tramas paralelas do início, mas compensa com uma montagem muito disciplinada, que pula de evento em evento sem perder o ritmo, e decupagem extremamente elegante. Vejam a sequência de abertura ou a cena de batalha numa sala vermelha (sem spoilers!), e reparem como ambas são belas, espacialmente bem definidas, dramaticamente poderosas e elevam o filme a ponto de causar arrepios.

Aliás, falando em arrepios, "Os Últimos Jedi" sabe muito bem o que está fazendo. O roteiro investe numa reflexão muito bonita da relação entre mestre e aprendiz, mostrando que um não vive sem o outro. Kylo Ren quer ignorar o passado, Poe tem o ímpeto da juventude e Rey demonstra a impaciência típica de uma jovem jedi, estando todos eles errados às suas maneiras. Seus mestres, ou líderes, dependem deles, mas também tem muito a ensinar. O 'novo' não necessariamente é melhor que o 'velho': Kylo precisou do pai, Poe precisa de Leia e Rey depende de Luke. Um pouco como os novos filmes olham com respeito para os antigos, evoluindo sem jamais abandoná-los. Ou como o ciclo de Luke é mostrado neste episódio.

Ver Mark Hamill barbado com cabelos grisalhos pode ser um choque, por remeter à lembrança daquele menino esperançoso de Tatooine, mas ao mesmo tempo é muito emocionante. Justamente por podermos presenciar a decadência, renovação de esperança, reencontro com velhos conhecidos (que cena meu deus, que cena!) e, por fim, seu momento de paz. Luke Skywalker ganha neste filme uma trajetória tão linda e significativa, que se torna impossível não chorar ou no mínimo lembrar de bons tempos que passamos com ele. 

"Star Wars: Os Últimos Jedi" termina com um sentimento muito particular da franquia. Não quero ser específico aqui, para evitar spoilers, mas mesmo diante de tragédias, a sensação das últimas cenas não é exatamente de tristeza ou alegria. É de esperança. Aquela mesma de soldados sendo honrados após destruir a Estrela da Morte ou de dois irmãos olhando juntos para o infinito do espaço. Mas também aquela capaz de construir rebeliões ou despertar a força dentro de uma certa menina de Jakku. Star Wars é uma faísca de esperança, antes com Luke, agora com Rey, mas sempre parte de todos nós.

Nota: 5/5 (Excelente)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2527336
- Distribuidora: Disney

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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