'Extraordinário': drama de superação bonitinho, porém inofensivo

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Extraordinário", Direção: Stephen Chbosky (Foto: Divulgação - Paris Filmes)
História de superação infantil é sempre um tema muito delicado. "Extraordinário", baseado no livro de R.J. Palacio, conta a trajetória de um menino que nasceu com a síndrome de Treacher Collins, uma condição brutal que gera várias complicações durante a vida. Imaginem os olhares, o preconceito, o desprezo, coisas que já devem ser terríveis para um adulto, enfrentados por uma criança. Dependendo do interesse do cineasta, uma trama dessas poderia variar do drama existencial até um thriller de terror psicológico. Claro, com muito choro garantido.

Curiosamente, Stephen Chbosky (do maravilhoso "As Vantagens de Ser Invisível") toma uma decisão inesperada e escolhe investir num texto leve, gostoso e lúdico. As dificuldades de Auggie (protagonista) nunca deixam de ser passadas, mas o filme vai nos levando pelo seu humor e carisma, ao invés de pelos seus medos ou inseguranças. O menino, além de extremamente divertido, encontra seu refúgio no espaço, seja em "Star Wars", que cita o tempo todo, seja dentro de seu capacete de astronauta. A relação é bonita, mas ao mesmo tempo melancólica e dura. Como se o pequeno Auggie só encontrasse conforto fora da Terra, perto de outros seres fantásticos (a citação ao Chewbacca é perfeita neste sentido) e longe da realidade. 

(Foto: Divulgação - Paris Filmes)
O filme encontra sua força nesses momentos em que se concentra no protagonista e suas interações com a família e seus novos amigos. Quando a trama escapa por vertentes para mostrar pontos de vistas variados, apesar de ser um recurso interessante se bem utilizado, na prática o projeto dá uma enfraquecida. Os coadjuvantes são interessantes, não é esse o problema. Mas talvez a quantidade excessiva de histórias paralelas tire um pouco o foco do próprio Auggie, justamente nas horas que precisávamos estar juntos dele. E não pensando no cara do clube de teatro, na melhor amiga da irmã ou na mãe do amiguinho, que sim podem ser pertinentes no livro, mas nem tanto num longa de 2 horas.

Como consequência, fica faltando também um pouco mais de profundidade na rotina real do protagonista, que certamente envolveria cirurgias, corridas ao hospital, provável dificuldade de aprendizagem e outros obstáculos terríveis. Pode ser uma escolha consciente de Chbosky, mas é inegável que tem seu preço. Acho louvável seu esforço de não deixar o projeto cair em melodrama barato, mas falta impacto e momentos definidores na história. Fortaleceria Auggie, assim como sua família e seus entes queridos. Muito mais que uma sequência dramática envolvendo um cachorrinho, que nada acrescenta a ninguém.

"Extraordinário" tem momentos tão bonitos que por conta desses tropeços acaba soando como oportunidade desperdiçada. O filme tem coração, emociona, mas não passa de inofensivo na maior parte do tempo. Felizmente, o menino vivido com energia e carisma por Jacob Tremblay tem uma luz tão brilhante dentro de si que consegue cativar até quando não está em cena. Sua condição não passa de uma máscara injusta para uma criança bondosa, inocente e humana. Assim como Chewbacca, Auggie é um herói a sua maneira. 

Nota: 3/5 (Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2543472
- Distribuição: Paris Filmes

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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