'Thor: Ragnarok': diversão razoável que quase vira irritação

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Thor: Ragnarok", Direção: Taika Waititi (Foto: Divulgação)
O universo cinematográfico da Marvel é um dos projetos midiáticos mais audaciosos que Hollywood já produziu. Goste ou não de super-heróis, qualquer um que acompanhe minimamente a indústria tem que respeitar essa longa franquia iniciada em "Homem de Ferro" de 2008 e que hoje já rendeu 17 longas-metragens. Dentre muitos acertos, talvez a única crítica mais grave que se pode fazer ao estúdio de Kevin Feige é a falta de liberdade criativa dos realizadores em prol da "fórmula Marvel", que acaba gerando filmes muito semelhantes uns com os outros. Surpreendentemente, "Thor: Ragnarok" foge um pouco desta regra. Mas, neste caso, será que isso é uma boa notícia?

Se distanciando de "Thor" (2011) e "Mundo Sombrio" (2013), esta nova aventura do deus nórdico abandona por completo qualquer pretensão épica dos longas anteriores. O projeto de cinema de Taika Waititi ganha força e se sobrepõe aos interesses de unidade do MCU. A ação desenfreada dá lugar ao humor excêntrico do diretor, de forma que o protagonista Thor esquece qualquer traço da sua imponência usual para virar uma figura majoritariamente cômica. Isso por si só não é um problema, na verdade dá até um certo frescor para a produção e a configura como um ponto fora da curva dentro da saga.

Waititi toma decisões muito conscientes, como o uso do seu elenco e principalmente a concepção visual do filme. É impressionante a habilidade cômica de Chris Hemsworth, que o diretor finalmente consegue aproveitar depois de tantas aparições do personagem. Assim como é admirável toda a direção de arte e fotografia que emprestam um ar de era pré-digital fascinante, mesmo nos ambientes que já conhecíamos. "Thor: Ragnarok" tem identidade, energia e esquisitice muito especiais, diferentes dos outros produtos da Marvel, com a óbvia exceção de "Guardiões da Galáxia" que segue caminho semelhante. 

(Foto: Divulgação)
Mas diferente de James Gunn, Waititi não parece ter a auto-disciplina para controlar o seu projeto. Se em "Guardiões" a dose de humor e ação, ou humor e dramaticidade, se encontravam em perfeito equilíbrio, sem que uma atrapalhasse a outra, em "Ragnarok" as piadas e tiradas cômicas estão completamente descontroladas. Não há respiro para a história andar ou para a gente se envolver com os personagens, tudo é uma grande piada. O Thor só faz gracinha, o Loki é só engraçadinho, a vilã só maliciosinha, o Hulk só solta piadinha e por aí vai. Chega uma hora que para de divertir e começa a irritar.

A trama apresenta vários espaços para momentos impactantes, como embate entre irmãos, perda de familiares, morte de pessoas, mas não desenvolve nenhum deles. Chegando ao cúmulo de soltar uma piadinha sem graça num ponto super dramático, quebrando por completo qualquer peso que a situação deveria ser. Ou seja, nem o luto dos personagens é respeitado. Não exijo muita profundidade em filmes de super-heróis, principalmente num que aposta na coincidência absurda que é o Thor e seu irmão adotivo caírem no mesmo planeta, que por acaso é o mesmo que o Hulk também estava. Sendo sincero, em poucos minutos de projeção, já tinha desistido de esperar um texto consistente. Mas se tem uma coisa que a franquia MCU sempre acertou foi o cuidado com seus personagens, e aqui infelizmente fica devendo.

Acho positivo a Marvel começar a permitir os seus diretores darem mais identidade aos seus filmes. Mas cabe então roteiros mais coesos, que não fiquem se sabotando com a necessidade de disparar alívios cômicos. "Thor: Ragnarok" quer tanto ser engraçado, que fica irritante. Sabe aquele seu primo de 2º grau que se acha hilário e você até gosta, mas depois de dois minutos de convivência já começa a merecer um soco pra ficar quieto? Então, esta é a perfeita descrição para esse filme.

Nota: 3/5 (Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt3501632
- Distribuidora: Disney

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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