Festival do Rio 2017 #9: 'Em Pedaços' e '120 Batimentos por Minuto'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

14) Em Pedaços (Aus dem Nichts, Alemanha, 2017), direção: Fatih Akin
(Foto: Divulgação)
Quando um filme funciona em várias frentes normalmente é um bom sinal. Isso acontece com "Em Pedaços", novo projeto de Fatih Akin (do premiado "Do Outro Lado") que transita bem entre a tragédia, história de tribunal e filme de vingança. A trama em si é bem simples, não tem reviravoltas, nem muitas camadas, o que de forma alguma é uma crítica. O roteiro disciplinado não dá espaços para arestas ou parênteses o que deixa a narrativa muito sucinta e focada na trajetória da protagonista. O próprio Akin traz qualidade ao texto que tem em mãos ao valorizar seus atores, dando para eles belos planos em que os mesmos declamam monólogos poderosos e intensos. No centro de tudo está Diane Kruger, interpretando uma mulher que perde tudo e precisa buscar um rumo na vida em meio a julgamentos, depressão e sede de justiça. A beleza na composição da atriz se encontra nas várias fases de sua personagem, que vai da alegria ao puro ódio. Seu prêmio em Cannes foi muito merecido, consagrando uma atuação realmente completa. Nota: 4/5 (Muito Bom)

15) 120 Batimentos por Minuto (120 battements par minute, França, 2017), dir: Robin Campillo
(Foto: Divulgação)
Neste Festival do Rio, quem gosta de chorar no cinema já tem o que assistir. "120 Batimentos por Minuto" é aquela porrada bem dada do ano. Mas bem dada mesmo! A história gira em torno da Act Up, grupo ativista da questão da AIDS, e suas ações em Paris na década de 90. Simultaneamente às cenas das intervenções públicas, o filme dedica boa parte do tempo a nos inserir nas reuniões da organização, mostrando seus debates internos, a interação entre os membros e o que motiva cada um. Desta forma, somos apresentados a diversas figuras fascinantes e os contextos que as levaram para o Act Up, assim como seus trágicos destinos. O roteiro de Robin Campillo (também diretor) e Philippe Mangeot tem a delicadeza de dar rostos (mesmo que fictícios) aos milhares de infectados pelo vírus HIV que por anos tiveram que lutar contra o descaso do poder público e a brutalidade das grandes corporações farmacêuticas. O filme é hábil ao mostrar como o preconceito, a desinformação e os interesses econômicos foram responsáveis diretos por tantas mortes precoces que poderiam ter sido evitadas. "120 Batimentos por Minuto" é um projeto extremamente político, mas também se preocupa com o lado humano e sabe envolver o espectador. Ao mesmo tempo que nos informa, ao fazer questão de mostrar uma cena de sexo com demorados segundos para colocação de um preservativo, também nos prende com os dramas pessoais dos protagonistas e ainda acha espaço para quebrar alguns tabus. A dor no final, deles e nossa, acontece por vermos pessoas tão incríveis perdendo progressivamente a vida e a força de lutar por uma causa tão importante. A porrada vem ao constatarmos que a maioria ali nem se quer lutava mais por si mesmos, mas pelas próximas gerações, para que outros não tivessem o mesmo destino. Isso é um nível de desprendimento tão grande que é impossível não emocionar, justamente por ser tão trágico, mas também muito lindo. Num mundo que sempre os tratou com violência, os ativistas da causa nunca deixaram de devolver com inteligência e amor. Nota: 5/5 (Excelente)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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