Musical ‘Rio Mais Brasil’ usa percussão corporal para cantar a brasilidade

Por Rodrigo Vianna


(Foto: Divulgação/Facebook)

A voz e o corpo. Dois elementos capazes de dar uma nova roupagem a um clássico da música popular brasileira. É assim que se desenvolve o musical “Rio Mais Brasil”, que está em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, no Rio de Janeiro.  Idealizado por Gustavo Nunes, com direção de Ulysses Cruz e autoria de Renata Mizrahi, o musical exalta um país possível e a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos e contrastes. O povo brasileiro é o protagonista, com sua pluralidade, sua complexidade, seu sincretismo, livre de estereótipos. No repertório, sucessos como “De Ladim”, “Caçador de Mim” e “Meu Lugar” ganham nova roupagem, com auxílio da percussão corporal.

Outro exemplo é a canção ‘Aquarela do Brasil’ (Ary Barroso), que ressurge completamente renovada, não só pelo arranjo inédito, mas pelo rap escrito pelo próprio Bauzys, incorporado à letra. “Na hora que a música fala, Terra de Nosso senhor, ali já entra um rap que diz, entre outras coisas: Terra de Nosso Senhor, de Oxalá, de Iemanjá, de Jesus. Enaltecemos o sincretismo no Brasil, que é algo tão lindo no nosso país, essa pátria de todos”, exalta o diretor musical Carlos Bauzys.

(Foto: Divulgação/Facebook)

Esse é, sem dúvida, o ponto alto do espetáculo. Em meio a uma onda de musicais que invadiu o Brasil nos últimos dez anos, “Rio Mais Brasil” é um exemplo de originalidade. A começar pelo elenco. Os atores tocam uma gama de instrumentos (mais de 30), muitos deles inusitados, como: berimbau de boca, ganzá e timbal e até mesmo uma bacia d’água ganha som, substituindo a orquestra. A direção musical aposta na percussão corporal como um elemento primordial na construção do espetáculo. Para um musical que fala sobre as dificuldades de se produzir arte no Brasil, tirar sons do próprio corpo mostra que somos todos precários.

Carlos Bauzys, inclusive, tem vasta experiência com essa linguagem, já trabalhou com o Barbatuques, um dos maiores expoentes do mundo em percussão corporal. “Essas escolhas partiram da nossa vontade de fazermos coisas diferentes, explorarmos distintos recursos vocais. E tem tudo a ver com o espetáculo, porque o corpo é muito rico de sonoridades e traz essa precariedade que o Ulysses busca. E também é natural da cultura do Brasil: fazer música, arte com o que é disponível”, acrescenta Bauzys.

“Brasis”
Em cena, o Brasil real, aonde cantam sabiás, uirapurus, mas que é, principalmente, berço de um povo produtor de uma arte plural, que cria música para balançar a tristeza, de uma gente que suja as mãos de barro para trabalhar, mas também para fazer brotar belezas. O país de Villa-Lobos, Ary Barroso, Caetano Veloso, Rita Lee, Almir Sater, Tom Zé. Mas também da mulher que carrega a lata d´água na cabeça, do menino que faz samba ou funk no morro ou no asfalto, do índio que dança em sua aldeia, do sertanejo que produz poesia à espera da chuva, da cabocla de jeito mestiço, do guri tri legal.

‘Rio mais Brasil, o nosso musical’ se passa nos bastidores da realização de um longa-metragem, livremente inspirado na obra ‘O Povo Brasileiro’, de Darcy Ribeiro. O produtor Martin (Claudio Lins) recebe uma verba para criar uma superprodução, mostrando um Brasil jamais visto antes no cinema usando a obra de Darcy como referência. Após muito procurar, ele vê suas ideias traduzidas pela cineasta Cris (Cris Vianna), que propõe mostrar a essência do povo brasileiro. E a escolha do elenco deve refletir essa proposta, com pessoas de todo o país, que mostrarão um pouco de suas vivências, ajudando a entender o Brasil através da sua gente. À medida que as filmagens avançam, os valores vão sendo reduzidos, até que o investimento na produção é completamente cancelado. Como seguir adiante? O que pode ser feito? Um novo fato reacende as esperanças e possibilita a continuação das filmagens.

Sem clichê
Se o objetivo do idealizador do projeto, Gustavo Nunes, e do diretor Ulysses Cruz era fugir do óbvio, eles conseguiram. Não há espaço para clichê. “Rio Mais Brasil” apresenta um país mais real, de pessoas potentes, sem os cartões postais. Um novo formato, seja na caracterização, passando pelo cenário, até chegar ao repertório. A atriz Cris Vianna, que interpreta a “Cris”, dá conta do papel, apesar de não parecer à vontade ao soltar a voz. Já o seu colega de cena, Cláudio Lins, põe toda a sua experiência em musical à mostra, evidenciando a sua capacidade vocal.

Realidade e ficção dialogam em cena. Não apenas porque o espetáculo retrata uma rotina tão comum à cultura brasileira, mas porque foi livremente inspirado em um fato acontecido na própria produção do musical, que seria montado em 2016, porém teve o cancelamento de um patrocínio quando estava iniciando os ensaios, já com todo o elenco escolhido. 

Diversidade brasileira
Assim como no filme retratado no espetáculo, a escolha do elenco traduz a diversidade brasileira: foram mais de 500 candidatos de todo o país e a lista inclui nomes do Amazonas, Mato Grosso, Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Anna Bello, André Muato, Bárbara Sut, Camila Matoso, Clayson Charles, Edmundo Vitor, Janaína Moreno, Kesia Estácio, Leandro Melo, Luciana Balby, Nando Motta, Marcel Octavio, Paulo Ney, Priscilla Azevedo e Teka Balluthy foram escolhidos pela banca formada por Ulysses Cruz, os diretores musicais Carlos Bauzys e Daniel Rocha, o diretor assistente, Thiago de Los Reyes, a produtora de elenco, Vanessa Veiga, e Gustavo Nunes. O elenco se complementa ainda com o multi-instrumentista Fernando Thomaz, que também atua nesta encenação.

O espetáculo inovou ainda ao possibilitar a participação do público na criação do roteiro final. As pessoas puderam enviar histórias verídicas e letras inéditas de músicas, através do site oficial. Uma dessas histórias e uma canção inédita foram selecionadas e incorporadas ao enredo final, que tem uma linha narrativa não-cronológica e não-linear. Em dado momento, podem ser mostrados, simultaneamente, o teste dos candidatos junto às cenas de suas vidas reais; cenas dos investidores podem se alternar com as filmagens ou com cenas dos bastidores. 

Após a temporada no Rio de Janeiro, o espetáculo circulará por mais sete capitais: Belo Horizonte, Campinas, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza, Curitiba e São Paulo.

Serviço:

‘Rio mais Brasil, o nosso musical’

Temporada: até 10 de setembro
Local: Oi Casa Grande - Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - a - Leblon, Rio de Janeiro
Horários: Quinta a sábado: 21h / Domingos: 19h
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