'Mulher-Maravilha': a heroína entre o mito e a humanidade

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Mulher-Maravilha", Direção: Patty Jenkins (Foto: Clay Enos/Divulgação - Warner Bros)
Já fazem 17 anos desde a retomada dos super-heróis nas telonas e não dava pra imaginar que nesta altura do campeonato alguma coisa ainda conseguiria se destacar no meio de tantas produções que invadem as salas todos os anos. Parece que no final das contas só faltava 'ela', a maior de todas, para tirar os fãs da estagnada zona de conforto que Marvel e DC construíram por tanto tempo. 

"Mulher-Maravilha" chega aos cinemas colecionando quebras de paradigmas antes mesmo de começar a projeção. Primeira heroína a protagonizar uma mega-produção, primeira mulher a ganhar comando num mercado historicamente masculino, primeira diretora a receber orçamento maior que 100 milhões de dólares em live-actions, e por ai vai. Mas o fato é que independente de records ou marcos, o produto não se sustentaria se faltasse respeito ao material, qualidade artística e uma boa personagem. Felizmente, o filme tem os três de sobra.

O roteiro de Allan Heinberg consegue criar o novo universo e desenvolver seus personagens com cuidado e carinho, o que resulta em dois primeiros atos impecáveis. Onde descobrimos a origem de Diana, das amazonas, dos vilões, além de suas respectivas motivações. Uma pena que no terceiro ato, Heinberg perca a mão e deixe seu texto super redondo quase desmoronar numa série de diálogos pavorosos e resoluções fáceis. Para sorte da Warner, no comando do projeto está Patty Jenkins, que mostra um domínio visual impressionante e praticamente resolve todos os deslizes narrativos do terço final.

(Foto: Clay Enos/Divulgação - Propriedade: Warner Bros)
A cineasta supera a grande maioria dos atuais diretores do ramo, ao criar sequências de ação ricas e espetaculares. A encenação é clara, entendemos a geografia das ações, o 3D é valorizado e a decupagem surge cheia de elegância. Muito mais que se pode dizer de Zack Snyder ou David Ayer, dois cineastas conceituados (mais o primeiro que o segundo, sejamos justos), que quase sempre se deixam levar pelos próprios vícios e perdem o controle de suas obras. Isso não ocorre com Jenkins, que chega ao ponto de emular algumas características de Snyder (como a câmera lenta), atingindo resultados até mais interessantes e, diria, mais conscientes. Reparem na primeira aparição da Mulher-Maravilha com uniforme completo, como a diretora eleva a figura da heroína, através de enquadramentos que a empoderam e mostram seu potencial de lenda, sua vocação como mito. 

Aliás, esse também é um dos pontos fortes do filme. Mostrar a Mulher-Maravilha como uma personagem mítica, símbolo da esperança. A melhor entre nós, a deusa entre os homens, mas ao mesmo tempo doce, justa, solar e humana. Tudo que o Superman deveria ser, mas não consegue mais desde 1978, quando foi retratado pelos olhos de Richard Donner e de Christopher Reeve. Diana nas mãos de Patty Jenkins e na pele de Gal Gadot é uma mulher completa, forte e imponente, extremamente feminina, mas sem jamais soar sexualizada ou objetificada. 

"Mulher-Maravilha" traz de volta a pureza dos super-heróis, apelando para a linguagem fantasiosa e quase cafona dos quadrinhos, que não tinha vergonha em distinguir o bem do mal. Afasta-se do sombrio/realista de Snyder e Nolan, para retomar às revistinhas e buscar o visual de cores fortes e lutas extravagantes do passado. Mas sabendo também recriminá-lo quando necessário, e eliminar todo e qualquer traço de misoginia que a mídia desenhada infelizmente infligiu em Diana (e suas outras personagens femininas) em vários momentos da história. Hoje quando Gal Gadot surge como Mulher-Maravilha, sabemos que ela é o ícone máximo de representação de super-heroína, forte, inspiradora e responsável por sua própria jornada.

Assim como Robert Downey Jr. é o Homem de Ferro e Hugh Jackman já foi o Wolverine, Gal Gadot se tornou para sempre a Mulher-Maravilha. Seus olhos gentis e expressão doce conseguem esconder mais que os óculos de Clark Kent, mas quando veste o manto vermelho se torna o mito que tanto esperamos. Encarregada não só de salvar a "Liga da Justiça", como de romper paradigmas e, de quebra, fazer história.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt0451279
- Distribuidora: Warner Bros

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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