'A Cabana': quando nem Octavia Spencer salva um filme

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"A Cabana", Direção: Stuart Hazeldine (Foto: Divulgação)
Projetar lógica em Deus é sempre complicado. Se é todo poderoso, por que não impede catástrofes? Se ama a todos nós, por que permite o sofrimento? Encontrar uma explicação plausível a estas questões, sem terminar achando o criador um desgraçado, é um exercício para poucos. Tão poucos, que "A Cabana", longa baseado no best seller de 2007, mesmo com muito esforço não consegue chegar em lugar nenhum.

A trama segue a vida de um homem que acabou de perder a filha pequena. Desesperado e em profunda depressão, Mack (interpretado por Sam Worthington) vai parar numa isolada cabana próximo de onde sua filha morreu. Lá, conhece Deus (Octavia Spencer) em pessoa, além de outras figuras divinas personificadas. Com esta rápida descrição, já dá para imaginar o clima de pregação que o filme vai assumir certo? Infelizmente, é exatamente isso o que ocorre.

Lá no fundo, consigo até ver a intenção de "A Cabana" em trazer uma mensagem de auto-descoberta e cicatrização, em especial para pessoas que tenham passado por um trauma tão trágico. Mas no final das contas, o roteiro de John Fusco (de "Marco Polo" da Netflix) não consegue nem por um minuto começar a responder nenhuma das perguntas que suscita. Involuntariamente ou não, o filme se deixa cair na pregação, sem refletir ou alcançar o devido questionamento a respeito do divino e de como Deus age sobre nós. 

(Foto: Divulgação)
Voltando às perguntas do primeiro parágrafo, ao assistir o filme, a melhor conclusão que consegui chegar é que Deus criou a humanidade numa versão demo de "Sim City". Onde ele tem o poder de criar vida e amor, mas de repente perde a capacidade de evitar catástrofes após 10 minutos de jogo rolando. Brincadeiras à parte, mesmo com o carisma e enorme empatia que Octavia Spencer passa no papel de Deus, não tem como se deixar levar pela mensagem tão superficial que vemos nas telas. Não sei até que ponto o livro aprofunda ou não essas questões, afinal não o li, mas a adaptação tem que conseguir se sustentar por si mesma. E o fato é que não consegue, soa sempre vazia ou com medo de expandir para fora da visão cristã da divindade.

Aliás, é uma pena que se encolha tanto em momentos decisivos. Por que, ocasionalmente, o roteiro chega sim a alguns acertos relevantes. O elenco, pertencente a minorias/estrangeiros, representando as figuras divinas é muito impressionante. Deus é uma mulher negra, Jesus um descendente de tunisianos, Sarayu uma mulher japonesa e Sabedoria uma latina, mais especificamente brasileira. Da mesma forma, me agrada ver tais personagens interpretados com tamanha humanidade, como se achassem graça e prazer em ter seus momentos como seres humanos. A sequência da primeira foto é também um belo certo, quando o autor (eu imagino) chega num lindo paralelo entre um jardim sendo replantado e memórias tristes virando uma saudade calorosa.

Infelizmente, "A Cabana" não vai muito além disso. No resto de suas duas horas de duração, parece não encontrar (ou não ter vontade de encontrar, o que é pior ainda) mais nenhuma resposta que desafie a compreensão estagnada das religiões institucionalizadas. Pra mim, só fica a esperança de que, caso Deus exista, ele realmente seja parecido com Octavia Spencer. Chegar lá em cima e ver aqueles olhos serenos me aguardando, talvez seja uma surpresa mais agradável que dar de cara com o Deus barbudo que manda os outros matarem os filhos em seu nome. 

Nota: 2/5 (Regular)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2872518
- Distribuidora: Paris Filmes

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!