'A Vigilante do Amanhã': Hollywood e sua mania de nivelar por baixo

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell", Direção: Rupert Sanders (Foto: Divulgação)
Impressionante como às vezes o sistema de produção hollywoodiano consegue advogar contra si mesmo. Qualquer roteirista com um mínimo de percepção entenderia a necessidade de adaptar "Ghost in the Shell", mangá conceituado e um dos animes em longa-metragem mais amado de todos os tempos, como uma ficção científica de grandes temas, cheia de conceitos profundos e discussões existenciais. Mas é só entrar o dinheiro dos mega estúdios e o consequente interesse dos executivos engravatados em criar um novo produto em forma de franquia que tudo começa a chacoalhar.

Sem nem entrar no mérito da polêmica em torno da escalação de Scarlett Johansson, num papel que exigia uma atriz oriental, o fato é que esta adaptação do anime de 1995 se contenta em nivelar o conteúdo por baixo. Ao invés de apostar no sci-fi, os realizadores preferem seguir o caminho mais seguro e entregar um filme de ação vibrante, mas ao mesmo tempo inofensivo. Sai então o subtexto enigmático e nebuloso do original, para dar lugar à orgia em câmera lenta do cinema de ação de Rupert Sanders e, no máximo, um ou outro questionamento metido a inteligente ("O passado não nos define. Nossas ações que definem quem somos." Nossa heim... Sério?).

(Foto: Divulgação)
Felizmente, do ponto de vista visual, "A Vigilante do Amanhã" alcança bons resultados, o que ocasionalmente quase esconde as falhas conceituais do roteiro. O design de produção é grandioso e impressionante, se revelando o maior trunfo do filme. Independente da escala em que somos apresentados, seja numa panorâmica da cidade ou num close em um beco sujo, a cenografia nunca deixa de se destacar e mostrar uma vida a mais do que a trama apresenta textualmente. Só pelo mundo criado por Jan Roelfs (designer de "Gattaca"), o projeto de franquia mereceria se tornar realidade. Em complemento, o diretor de fotografia Jess Hall (de "Chumbo Grosso", clássico do Edgar Wright) se aproveita da riqueza de detalhes do universo de Roelfs para elaborar alguns planos realmente memoráveis, tanto originais, quanto os que replicam cenas do anime.

O diretor Rupert Sanders também merece sua parcela de reconhecimento, por conseguir realizar boas cenas de ação, com distribuições espaciais compreensíveis e coreografias interessantes. Embora às vezes se entregue ao exagero, no geral o cineasta mostra um avanço bem considerável em relação a seu projeto anterior, o fraco "Branca de Neve e o Caçador". Aqui sendo só necessário um parentese em relação a versão 3D do filme, que de forma alguma funciona. Além da fotografia extremamente escurecida, Sanders filma em boa parte do tempo alternando entre planos abertos ou planos fechados com baixa profundidade de campo. Desta forma, o 3D é praticamente desperdiçado, uma vez que não existem camadas, partículas e campo visível para de fato aproveitarmos o efeito de três dimensões.

Por fim, no balanço entre simplicidade temática e blockbuster de ação, "A Vigilante do Amanhã" termina com um saldo positivo, funcionando bem pelo menos como entretenimento do fim de semana. Embora acerte um alvo bem longe do que se esperava de uma adaptação de "Ghost in the Shell", especialmente após o marketing agressivo que previa "O Novo Matrix", é um filme que dá para apreciar e até torcer que consiga boa bilheteria. A possível continuação tem o caminho aberto para se arriscar mais do que esta primeira tentativa. É só o estúdio largar um pouco a covardia, parar de nivelar por baixo e de repente confiar um pouco mais na capacidade de seu público. 

Nota: 3/5 (Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt1219827
- Distribuidora: Paramount Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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