'Um Limite Entre Nós': chance de ver Viola Davis brilhar e nada mais

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Um Limite Entre Nós", Direção: Denzel Washington (Foto: Divulgação)
Adaptar textos teatrais pode sempre ser uma armadilha. Quando se trata então de uma obra voltada para muitos diálogos e ação escassa, pouquíssimos cineastas tem a habilidade de conferir intensidade e dinamismo ao material, de forma que não resulte numa mistura equivocada entre teatro e cinema. Sidney Lumet, por exemplo, foi muito bem sucedido no excepcional "12 Homens e uma Sentença", mas infelizmente não podemos dizer o mesmo de Denzel Washington com seu novo "Um Limite Entre Nós".

O fato é que o filme, baseado no espetáculo "Fences", não consegue nem por um minuto se descolar de sua origem teatral. Embora isso não seja necessariamente um problema, aqui evidencia a falta de originalidade de Washington e seu montador em trazer algo próprio da arte cinematográfica ao projeto. O diretor tenta inovar, criar planos diferentes, mudar os cenários, mas acaba por apenas alongar o já extenso roteiro de August Wilson. Em certo momento, lá para a metade da duração, ocorre uma quebra na narrativa. O efeito é tão gritante e tão dissonante do resto do filme, que pude quase sentir a cortina fechando, a luz da plateia acendendo e o sistema de som anunciando "15 minutos de intervalo". Sim, meio sem querer, não conseguiram nem disfarçar a deixa do intervalo do espetáculo original.

(Foto: Divulgação)
Espetáculo, aliás, que para falar a verdade, também não tem nada de muito interessante. Ocasionalmente alguns personagens e acontecimentos conseguem despertar certa simpatia, mas no geral é uma história (adaptada para roteiro pelo próprio autor da peça) um tanto arrastada e cheia de pequenas conveniências. Constantemente, quando o roteirista parece perceber que as situações e enorme troca de diálogos estão por ficar irrelevantes ou repetitivas, novos obstáculos inesperados surgem nas vidas dos personagens. A artificialidade é tão grande, que chega um ponto, após três ou quatro viradas drásticas na trama, em que começamos a perder o interesse em tudo que está acontecendo. Afinal, pra que se dedicar emocionalmente a uma situação, se logo vai surgir outra para tornar a anterior quase descartável?

No fim, o filme só encanta mesmo ao dar oportunidade e tempo de tela para ótimos atores brilharem. Denzel (o ator) faz um trabalho correto e intenso, embora sua verborragia acabe em certo momento cansando. Já Viola Davis, sua esposa fictícia, que realmente se destaca numa performance magistral, delicada e tocante. Quando realmente requisitada, em um instante de explosão da personagem, ela dá um show comparável ao momento inesquecível que a consagrou em "Dúvida" (de John Patrick Shanley). Seus companheiros de tela, embora com menos brilho (afinal perto de Viola Davis, só mesmo Meryl Streep), também entregam atuações interessantes. Em especial Stephen Henderson, que dá doçura e calor humano ao Senhor Bono, mesmo que apareça tão pouco em comparação ao núcleo principal.

Mas apesar dos esforços do elenco, nada é capaz de encurtar os excessivos 139 minutos do filme. "Um Limite Entre Nós" se perde justamente ao confiar demais que vamos manter o interesse naqueles personagens e seus intensos falatórios. Não há Viola Davis que segure a atenção num texto arrastado e cheio de conveniências, somado a uma direção tão pouco inspirada. Não foi desta vez que Denzel se firmou como diretor. Que entreguem o Oscar pra Viola e, para este projeto, está mais do que no lucro.

Nota: 2/5 (Regular)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2671706/
- Distribuidora: Paramount Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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