'Moonlight': um exercício de empatia e laços de amor

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Moonlight: Sob a Luz do Luar", Direção: Barry Jenkins (Foto: Divulgação)
A empatia é um exercício difícil para os seres humanos. Não é sempre que temos a habilidade de nos colocarmos no lugar do outro e entender os dramas alheios como nossos. Um menino emburrado, população marginalizada, preconceitos historicamente construídos, o que pode soar como "mimimi" ou vitimismo para uns, muitas vezes é uma verdade constante para outros.

"Moonlight: Sob a Luz do Luar" é um filme que entende o significado de conexões e empatia, sem procurar soluções fáceis ou cinematograficamente impactantes. O roteiro segue a vida de um menino chamado Chiron que passa por praticamente todas as piores provações que um ser humano poderia passar: muita insegurança, bullying, pais ausentes, poucos amigos, convivência com pobreza e dúvida (ou vergonha) de sua própria sexualidade. Portanto é através da empatia de terceiros, e consequentes demonstrações de amor, que o jovem protagonista acha um refúgio na própria existência.

O diretor Barry Jenkins opta por contar sua história através de três períodos específicos: infância, adolescência e fase adulta, pegando um pouco emprestado a linguagem usada por "Boyhood". Esta decisão é consciente, de forma que jamais ousaria chamá-la de 'errada', mas acaba por cobrar seu preço em determinados momentos. Cada fase da vida de Chiron é tão bem construída que se torna inevitável sentir uma sensação de incompletude sempre que as elipses aparecem. Talvez "Moonlight" se beneficiasse de mais alguns minutos de duração, para estender um pouco o olhar sobre o crescimento e o desenvolvimento do personagem.

(Foto: Divulgação)
Entretanto, como mencionei, essa opção narrativa é proposital. Jenkins, com ela, pontua os momentos de interações e amor na vida de alguém que jamais os teve. Na infância surge a figura do traficante (Mahershala Ali) e de sua namorada (Janelle Monáe), enquanto na adolescência e na fase adulta se estabelecem as relações problemáticas com o melhor amigo Kevin e a mãe vivida por Naomie Harris. O filme busca, com extrema sensibilidade, entender aonde surgiram os laços de amor (independente da conotação que se dê a esta palavra) que moldaram o protagonista e o fizeram se tornar quem ele é. 

Por conta disso, sua vida adulta seja justamente o momento mais marcante. Quando o filme nos mostra Chiron crescido, notamos de imediato como ele está diferente do menino de anos antes. Publicamente, o personagem é um sujeito forte, com autoridade e seguro. Mas seu reencontro com Kevin, que o procura para pedir desculpas, revela toda fragilidade e suas inseguranças. O plano final é de uma delicadeza ímpar, ao mostrar duas pessoas que de uma forma ou de outra acharam um entendimento no meio de tanta injustiça e sofrimento. 

"Moonlight" termina, assim, como uma das obras mais sensíveis do ano. Um filme sem dúvida diferente, com linguagem muito particular, que talvez não consiga se comunicar com todo mundo e provavelmente não vai ser tão apreciado. Mas que entende como poucos o significado de conexões pessoais e das várias formas de amor. Chiron pode estar errado nos seus conceitos de família, amigos e sexualidade, aos olhos de uma sociedade tradicional e ultrapassada, mas ele os torna certos à sua própria maneira. Em tempos de ódio, amar é a maior arma de todas.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt4975722/
- Distribuidora: Diamond Films

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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