'John Wick: Um Novo Dia Para Matar': a violência como meio e fim

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"John Wick: Um Novo Dia Para Matar", Direção: Chad Stahelski (Foto: Divulgação)
As vezes o que importa é ser honesto. Essa é a frase que a equipe de criação de John Wick deve usar como mantra para levantar da cama todos os dias. Depois do primeiro capítulo em que o personagem título aniquilava o mundo para vingar a morte do seu cachorrinho, "John Wick: Um Novo Dia Para Matar" chega aos cinemas com a mesma estupidez e falta de história, apostando todas as fichas nas sequências de ação frenéticas e insanas.

Chad Stahelski parece ter aprendido bastante durante os últimos três anos. Visivelmente mais confortável na cadeira de diretor, o americano se mostra bem mais ousado e criativo na hora de pensar a ação do filme. Se antes ele frequentemente se perdia em cortes muitos rápidos e sequer sabia estabelecer a geografia dos ambientes, agora na continuação ele entrega sequências interessantes, bem definidas espacialmente e muito inventivas. De vez em quando, consegue até criar planos bonitos e memoráveis, embora neste caso eu suspeite que talvez seja sem querer. 

O fato é que Stahelski entendeu e aceitou as baixas pretensões de seu projeto. O roteiro é bobo? As viradas na trama são frequentes e desnecessárias? Existe diversos personagens descartáveis? Sim, sim e sim. Mas estão todos lá para servir ao cinema de ação, como um jogo de videogame das antigas que só inventa desculpas para você continuar matando. Aliás é essa a linguagem que o diretor simula: a luta começa, de repente John passa de nível e ganha uma nova skill, até que mata um oponente mais forte e consegue uma arma inesperada. O filme vai evoluindo no ritmo de um personagem de 16 bits passando de fase, de puzzle em puzzle e de boss em boss (chefões para os gamers old-school).

(Foto: Divulgação)
Trama em si é irrelevante, óbvio. Vejam como todo o prólogo envolvendo parentes dos vilões do filme anterior não tem importância nenhuma. Aliás, o próprio Laurence Fishburne encarna um personagem que poderia muito bem ser eliminado sem prejuízo nenhum ao roteiro. Mas não importa: o que vale é a piada, a oportunidade de criar mais ação e mais canastrice. Falta agora a Chad Stahelski, já pensando no inevitável John Wick 3, passar um tempo com Paul W.S. Anderson (da franquia Resident Evil), para aprimorar suas habilidades no cinema de ação e esquecer de vez essa bobagem de "roteiro". Digo mais, que o próximo filme seja em 3D, 7.1 e Imax. De preferência com fogo de verdade. E se der, com cheiro também. 

Não pensem que John Wick tem algum grande tema por trás: banalização da violência, crítica a sociedade moderna, etc. Nada disso, não caiam nesta armadilha. A franquia é uma obra de ação, feita por criativos interessados em assassinos, explosões, perseguições e muitos tiros. Keanu Reeves passa o tempo todo calado e inexpressivo, porque os autores do personagem realmente não tem muito o que dizer ou sentir (pensando por este lado, o casting é até bem apropriado). O que importa é como cada figura na tela maneja uma arma ou sabe seguir uma coreografia de luta.

"John Wick: Um Novo Dia Para Matar" não é um grande filme, nem vai mudar a vida de ninguém. Na verdade provavelmente vai ser esquecido no momento que a sessão acabar. Mas é um produto de nicho, que ao menos é honesto consigo mesmo e com seu público. Algo que nem todos blockbusters conseguem ser e se afundam justamente por causa da arrogância de seus criadores. Honestidade é a chave do negócio, com ela até Michael Bay iria mais longe. 

Nota: 3/5 (Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt4425200/
- Distribuidora: Paris Filmes

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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