'Internet - O Filme': 90 minutos de tortura e vergonha alheia

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Internet - O Filme", Direção: Filippo Capuzzi Lapietra (Foto: Divulgação)
Antes de qualquer coisa: eu adoro YouTube. Acho uma plataforma incrível, que permite a criação e propagação de conteúdo audiovisual como jamais foi possível. Tenho inclusive profunda admiração por diversos youtubers e considero um absurdo desmerecer seus trabalhos por conta de preconceito com o formato. Posso gostar mais ou menos de alguns, mas independente do tipo de vídeo de cada um (seja vlog, esquete, desafio), jamais tiraria seus méritos de comunicação, entretenimento e criação. 

Aliás, simpatizo com a maior parte dos envolvidos em "Internet - O Filme". Posso não ser um seguidor fiel, mas já assisti e até me diverti com vídeos do Castanhari, T3ddy, Cauê Moura, Victor Meyniel e etc (o Jacaré Banguela, por exemplo, até gosto bastante). O problema é quando um projeto equivocado como esse se apropria dos carismas individuais de cada youtuber para criar um produto vergonhoso e humilhante, que ignora praticamente tudo que os faz autênticos em seus respectivos canais. 

Soando como uma mistura infeliz entre "É o Fim" (de Seth Rogen) e "Movie 43", o roteiro assinado por Rafinha Bastos, Dani Garuti e Mirna Nogueira nem se preocupa em construir uma trama com início, meio e fim. Na verdade, o máximo que se esforçam é criar um fiapo de dramaturgia, para apresentar diversas esquetes de humor, uma mais insuportável que a outra. Cada uma é protagonizada por um grupo de youtubers famosos, sempre interpretando pseudo alter egos ou paródias de si mesmos. O que poderia até se tornar uma auto-crítica divertida, resulta em historinhas nada engraçadas, sem pé nem cabeça e extremamente forçadas. 

(Foto: Divulgação)
O diretor Filippo Capuzzi Lapietra desperdiça o maior trunfo de suas estrelas, a espontaneidade, justamente ao tentar ensaiá-las. Então, salvo uma ou outra exceção, os "influenciadores" que normalmente aparecem tão soltos na internet, se mostram podados e desconfortáveis em seus respectivos papéis. E quando alguns atores/comediantes mais interessantes surgem em cena (como Paulinho Serra e Maurício Meirelles), o roteiro tolo os desperdiçam em personagens imbecis e inverossímeis. 

Mas o pior não é nem a falta de graça, a trama sem sentido ou as más atuações. Além de tudo, o humor parece ter sido feito por um moleque de 12 anos, extremamente interessado em peidos, xingamentos e insinuações sexuais dignas do recreio da 5º série. Portanto não estranhem em ouvir piadas envolvendo um cachorro chamado "Brioco" e um bando de adultos se xingando de "arrombado", "chupa-rola" ou "viado" (me espanta até não ter nenhum personagem chamado Jacinto Leite Aquino Rego ou Paula Tejando). E claro, o filme de quebra ainda consegue ridicularizar e ser ofensivo com tudo que passa pela frente: homossexuais, deficientes auditivos, gordos, idosos, nerds e etc. Chegando ao ponto de pintar uma de suas personagens femininas (Polly Marinho), a única negra, com biotipo um pouco diferente das outras "atrizes" (na falta de uma palavra melhor), como a excêntrica, coitada necessitada de atenção e a prenda da aposta dos três amigos retardados.

"Internet - O Filme" se encerra então, após 90 minutos de tortura e vergonha alheia, como um produto que parece não acertar em absolutamente nada, nem em utilizar os pontos fortes de suas estrelas. Tendo talvez como único momento de sinceridade a cena final em que Rafinha Bastos grita para o mundo o quanto é e sempre vai ser um "cuzão", adjetivo do próprio autor que estendo mais ao seu texto do que especificamente a ele. Volto a lembrar, o YouTube e suas celebridades não são o problema, vide o simpático filme do Christian Figueiredo ("Eu Fico Loko") e o ótimo "Entre Abelhas" da equipe do Porta dos Fundos. A questão aqui é a falta de graça, empatia, respeito a inteligência alheia e qualquer noção de bom gosto num projeto genérico e caça níquel. 

Que na próxima vez não esqueçam de importar do YouTube um botão de "Deslike" para a gente poder apertar quando sair do cinema. 

Nota: 1/5 (Ruim)

Mais informações:
- Trailer: www.youtube.com/watch?v=U9a4P7yBs5U
- Distribuidora: Paris Filmes

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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