'Estrelas Além do Tempo': as heroínas que nunca ouvimos falar

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
Quando pesquisamos sobre a corrida espacial da metade do século passado, vários nomes vem de imediato no hall de heróis: John Glenn, Neil Armstrong, Yuri Gagarin, Buzz Aldrin, etc. Além destes, com uma pesquisa mais profunda, no máximo mais alguns astronautas e grandes diretores da NASA aparecem, deixando de lado toda uma equipe de homens e mulheres por trás dos panos. "Estrelas Além do Tempo", baseado no livro "Hidden Figures", se concentra justamente na correção deste erro histórico e traz para o protagonismo algumas das figuras escondidas que também foram igualmente importantes para a chegada do homem ao espaço. 

O roteiro se concentra na história de três mulheres negras que trabalhavam na NASA, na época em que os escritórios da agência ainda eram segregados por cor de pele. Exercendo funções muito abaixo de suas capacitações, as três sofriam para conseguir o devido reconhecimento e as mesmas oportunidades que os demais funcionários brancos possuíam. Com muito esforço, Katherine Goble Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) passam a reivindicar seus direitos para atingirem seus objetivos como matemática da corrida espacial, supervisora e engenheira, respectivamente.

O maior acerto dos roteiristas é esse, dar a devida importância individual para as três mulheres e suas conquistas. Muitos projetos que tratam de lutas sociais e políticas dos afro-americanos nos Estados Unidos tem o péssimo hábito de colocá-los como coadjuvantes na própria história. Frequentemente vemos este tipo de filme trazendo personagens brancos que protagonizam ou legitimam a luta dos negros, o que é um absurdo por natureza. Mas "Estrelas Além do Tempo", felizmente, não comete este mesmo erro.

(Foto: Divulgação)
Desta forma, o chefe vivido por Kevin Costner só revoga os banheiros segregados da agência após reivindicação de Katherine. Assim como Dorothy e Mary só atingem seus objetivos através de seus próprios esforços e inteligências. O filme é também hábil ao apresentar a crueldade da sociedade da época, que cegava até boas pessoas do problema que se passava diante de seus olhos. A cena em que Costner remove os sinais de segregação da mesinha de café é simbólica por mostrar como um homem tão inteligente não tinha a capacidade de perceber as injustiças que aconteciam com sua melhor funcionária. Sua cara de impotência e incredulidade revela alguém que se deu conta tarde demais das maldades que a sociedade impunha a outros seres humanos e como ele mesmo jamais havia feito nada para mudar.

No fim, o filme ainda consegue a proeza de gerar emoção e torcida para sequências de lançamentos espaciais, já mostrados inúmeros vezes no cinema. Em grande parte, justamente por trazer a perspectiva de novos personagens que nunca tiveram espaço em obras anteriores. O roteiro só peca pontualmente ao se alongar demais em algumas passagens das vidas íntimas das protagonistas e, em outro momento, dar pequenas redenções para todos os antagonistas, em especial os vividos por Jim Parsons e Kirsten Dunst. Soa quase como um irresponsável "eles não eram mal intencionados", o que de forma alguma cabe num filme tão inteligente como este. Mas isto obviamente não atrapalha o resultado final. "Estrelas Além do Tempo" é um projeto forte e importante, feito para relembrar figuras que jamais deveríamos ter esquecido.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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