'A Qualquer Custo': o novo faroeste de uma nação arrasada

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
O western foi um gênero muito próspero na antiga Hollywood. Mas também era o retrato de uma época, em que se louvava o cowboy solitário e desprezava a população nativa americana. Os tempos mudaram, assim como o conceito do faroeste clássico. Agora, em 2017, sai o herói idealizado em jornadas épicas, entram ladrões endividados, vítimas de uma sociedade arrasada.

O roteirista Taylor Sheridan (do maravilhoso "Sicario: Terra de Ninguém") se apropria de alguns arquétipos estabelecidos para contar sua história, como os irmãos em um "último trabalho" e o "policial em fim de carreira". Isso funciona bem para estabelecer a dinâmica entre os personagens e suas próprias motivações. Desta forma entendemos bem o que move cada um deles, a ponto de nos importarmos por todos, embora estejam sempre em conflito uns com os outros. As performances certeiras dos atores principais (Chris Pine, Ben Foster e Jeff Bridges) também ajudam a dar profundidade aos dramas individuais, mesmo que eventualmente suas ações em tela sejam reprováveis.

(Foto: Divulgação)
Mas independente do histórico de cada personagem, o pano de fundo da trama principal que parece ser o objeto de maior interesse de Sheridan e do diretor David Mackenzie (do meu adorado "Sentidos do Amor"). Passado no oeste texano, onde imperam as placas de empréstimo fácil e promessas irreais de crédito, o filme é um retrato de uma economia arrasada. Se jogando de cabeça neste tema cada vez mais comum no cinema hollywoodiano, "A Qualquer Custo" faz a provocação em cima das práticas abusivas das corporações bancárias, que progressivamente vem endividando as populações de baixa renda dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, comenta a irresponsabilidade do porte de arma descontrolado, que aliado à situação social precária, cria uma onda de cidadãos vigilantes e violentos extremamente perigosos.

O design de produção e fotografia contribuem para esse clima dos personagens, sempre os mergulhando em ambientes sem cores, onde predominam o marrom e a sujeira da terra. Os figurinos, da mesma forma, ressaltam o constante estado de degradação daquelas pessoas, conseguindo também diferenciar os protagonistas e a população "comum", suja e acabada, dos engravatados que trabalham no banco, falsamente limpos. Com isso "A Qualquer Custo" se encerra sem deixar arestas, um filme redondo, com impecáveis qualidades visuais e narrativas. Mas também um retrato triste do que se tornou o faroeste contemporâneo.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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