'La La Land': um lindo filme sobre sonhos, cinema e musicais

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
Me lembro perfeitamente do dia em que vi "Cantando na Chuva". Lembro também da primeira vez que escutei a orquestra do musical que iniciou minha carreira de produtor. Lembro de muitas coisas na minha vida como fã, profissional e apreciador de musicais, este gênero misterioso e encantador que tanto me fascina, seja no cinema ou no teatro. Em janeiro de 2017 assisti "La La Land". E esta talvez seja mais uma data especial que vou me lembrar daqui a muitos anos.

Musicais são difíceis, eu reconheço. Não é todo cineasta que consegue trazer credibilidade para algo que é por natureza lúdico, fantasioso e, por vezes, assumidamente tosco. Mesmo quando consegue, não é sempre que o público compra a ideia. É um gênero que parece precisar de uma certa pré-disposição do espectador para funcionar. Portanto, por mais triste que isso seja, acho compreensível a indústria ter se afastado dos musicais. 

Por conta disso, "La La Land: Cantando Estações" se torna um filme tão especial. O diretor e roteirista Damien Chazelle (de "Whiplash") entendeu as características do musical enquanto gênero, mas também como possibilidades narrativas. Então, os números musicais não só permeiam, conduzem e contam a história, como evoluem e se adaptam de acordo com o momento do roteiro. No início, os números são exagerados, extravagantes, um pouco "fakes" como um sonho que não quer terminar. Ao passo que mais para o meio, de repente eles diminuem de escala: ficam mais próximos dos personagens, ganham ares de vida real, como se a magia tivesse ido embora. Isso tudo em paralelo com a vida da própria protagonista, que de aspirante a atriz sonhadora, passa por decepções, confrontos com a realidade e vontade de desistir. 

(Foto: Divulgação)
O musical, como linguagem, evolui e se transforma junto da personagem, saindo do delírio dos musicais clássicos até o visual de videoclipe em certo momento. Reparem como só no final que o musical volta, com toda a extravagância e fantasia inerente ao gênero, justamente para apresentar uma versão mais romântica da realidade. A versão que a gente queria ver, mas infelizmente não é a verdadeira. E quando ela não se confirma, o que acontece? A música para, a fotografia muda e o silêncio vence. Acabou o sonho, acabou o musical. Chazelle mostra assim como entende de narrativa e sabe amarrar histórias como ninguém. Em "Whiplash" ele já havia encontrado o desfecho perfeito de entendimento entre sua dupla principal, em uma sequência impecável e de tirar o fôlego. Agora, em "La La Land", ele encerra as trajetórias de seus personagens, sem cair no inverossímil, mas ao mesmo tempo preservando o lado lúdico. 

E se não bastasse todos esses méritos, o cineasta também acerta em cheio no seu elenco. Ryan Gosling vence todos os desafios do papel com perfeição, mostrando preparo para o piano, sapateado e canto, além de excelente (e inesperado) timming cômico. Enquanto Emma Stone apresenta talvez o melhor trabalho de sua carreira, conseguindo impressionar em toda a gama de emoções de sua personagem, além de cantar e dançar lindamente. O filme ainda surpreende com Rosemarie DeWitt e J.K. Simmons fazendo pontas de luxo, em participações que conseguem trazer ainda um pouco mais de brilho às telas .

O final, quando chega, é doloroso não por conta dos rumos da história ou do destino dos personagens. Mas sim por que somos atirados para fora de um universo tão lindo, encantador e gostoso de viver. "La La Land" é um daqueles projetos que deveriam durar para sempre, maiores que prêmios, maiores que bilheteria, maiores que crítica. É um filme que homenageia os musicais, renova o gênero e sabe ser romântico, trágico, tocante e verdadeiro quando precisa. Mas ao mesmo tempo sem jamais perder a magia e o sonho.

Nota: 5/5 (Excelente)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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