'Desventuras em Série': acerto com esquisitices e bons personagens

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
Quando a primeira adaptação da saga literária "Desventuras em Série" estreou em 2004, tudo indicava que poderia se tornar uma nova grande franquia cinematográfica infanto-juvenil. Visual bacana, roteiro competente, bons atores e um Jim Carrey extremamente inspirado. Mas sabe-se lá por que, apesar das boas críticas, o público não comprou muito a ideia do filme, que arrecadou pouco mais de 200 milhões de dólares mundialmente para um orçamento de 140.

Com o passar do tempo a Paramount foi perdendo o interesse em adaptar o restante da obra do autor Daniel Handler, até desistir por completo alguns anos atrás. Vendo o potencial do material, a Netflix (sempre ela) resgatou a ideia e investiu neste reboot que chega completamente repaginado, com novo elenco e roteiros mais fiéis aos livros originais. 

Um dos responsáveis pelo novo projeto é Barry Sonnenfeld, diretor que originalmente ia comandar o filme de 2004 mas se afastou após vários atrasos na produção. Agora, no reboot, ele assume o papel de produtor executivo e diretor de quatro dos oito episódios, trazendo toda sua expertise de histórias fantásticas e esquisitas. Com uma carreira bem interessante, que inclui direção de "A Família Addams" e "MIB: Homens de Preto" (além da produção da deliciosa "Pushing Daisies"), Sonnenfeld investe no maior clima possível de estranhamento em "Desventuras em Série", criando uma atmosfera de esquisitice que consegue dar nervoso e encantar ao mesmo tempo.

(Foto: Divulgação)
O design de produção de Bo Welch (responsável por "Batman: O Retorno" e "Edward Mãos de Tesoura"), contribui para experiência, estabelecendo o universo da série como uma curiosa mistura entre Wes Anderson, Tim Burton e Família Addams. Ao mesmo tempo, os roteiristas (chefiados pelo próprio autor) resgatam toda a linguagem irônica e pouco otimista dos textos originais, conseguindo extrair comicidade e irreverência mesmo nos momentos mais trágicos da história dos Baudelaires. 

Mas claro que o grande destaque da série é o elenco, capitaneado por ninguém mais, ninguém menos que Neil Patrick Harris. O ator, que também produz o projeto, cria sua própria versão do Conde Olaf, sem cair na armadilha de imitar o Jim Carrey, trazendo ao personagem o melhor de sua própria personalidade. Então esperem ver na composição do Conde um pouco de tudo que Harris já fez de melhor, incluindo o seu lado showman de apresentador, o timming cômico de Barney Stinson e até sua habilidade em se transformar por completo vista na montagem da Broadway de "Hedwig and the Angry Inch". Mas, felizmente, o mérito do elenco não se limita ao vilão. As crianças são vividas por dois (ou três se incluir a adorável bebê) atores muito carismáticos e expressivos, além do próprio Lemony Snicket, interpretado por Patrick Warburton de forma muito divertida.

Embora peque pontualmente pelo excesso de inocência, tirando qualquer sensação de urgência que as vezes as situações necessitavam, a série consegue uma dose equilibrada de caricatura, drama e diversão. Quem gosta desse tipo de obra, com trama esquisitinha, cenários meio malucos e personagens caricatos, vai se sentir em casa vendo "Desventuras em Série". Mais uma prova de que a Netflix segue acertando em cheio nas suas produções originais e que os R$ 22,90 de assinatura é hoje o gasto mensal mais importante para qualquer fã de série de TV. 

Nota: 4/5 (Muito bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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