'Até o Último Homem': filme de guerra que não precisamos mais

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
A reformulação do colegiado da Academia, iniciada ano passado após a polêmica do "Oscar So White", pode até estar ajudando a trazer mais diversidade e representação aos indicados, mas ainda não impede que filmes com discursos ultrapassados cheguem nas categorias principais. Este "Até o Último Homem" é a prova disso: uma produção com ar envelhecido, cheia de um nacionalismo exagerado que só interessa mesmo aos americanos. 

A trama gira em torno de um soldado "pacifista" que se recusa a pegar em armas, conseguindo assim um posto como médico do exército. Embora o protagonista tenha esta vertente anti-bélica, o filme investe sem pudor em cenas extremamente violentas. O diretor Mel Gibson, que volta ao Oscar depois de 22 anos, filma tudo de forma muito gráfica, com sangue, tripas e explosões realistas, no mesmo estilo de suas produções anteriores. Mas é neste ponto que o filme atinge seus maiores méritos. A decupagem de Gibson é criativa, com organização espacial clara e beleza estética impecável. Aliada à montagem dinâmica de John Gilbert (de "Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel"), as sequências de batalhas se tornam realmente impressionantes, despontando como algumas das mais bonitas já vistas no gênero de guerra. O elenco também se destaca, trazendo visceralidade e intensidade às suas atuações. Em especial Andrew Garfield, que se entrega por completo no papel principal. 

(Foto: Divulgação)
O problema de "Até o Último Homem" é o fato de não conseguir se desprender do modelo do 'war movie' padrão. Gibson glorifica o herói americano como o cinema hollywoodiano vem fazendo desde sua criação. Mudam os tempos, muda o local, muda a guerra, mas os cineastas do país parecem não entender que esta mesma história já foi contada inúmeras vezes. Alguns podem ver como heroísmo, mas outros podem não achar sentido nenhum naquilo. O próprio roteiro parece não conseguir explicar muito bem de onde vem o patriotismo do protagonista, tendo em vista a sua personalidade. Talvez para os locais seja algo inerente ao nascimento, mas para estrangeiros chega a soar quase como trama mal explicada. 

 "Até o Último Homem" é o tipo de filme que não precisamos mais. Uma produção extremamente cínica, com nacionalismo ultrapassado, que só poderia ter sido feita por Mel Gibson, um notório conservador, religioso exacerbado e espancador acusado de diversas agressões. Por maiores que sejam seus méritos técnicos, sinceramente não vejo mais apelo nenhum em filme preocupado em louvar soldados ou o exército americano. Os Estados Unidos tem muitas virtudes, mas a guerra não é uma delas. Talvez seja hora de Hollywood voltar a analisá-la com o mesmo olhar crítico que concede a outros problemas do país.

Nota: 3/5 (Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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