Reencena: Musicais clássicos - o bom, o brega e o feio

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Hair, Foto: Reprodução)
Sejam bem-vindos a "Reencena", nova coluna do Contracenarte sobre clássicos e velharias da arte cinematográfica! Periodicamente vamos postar novas matérias com comentários ou listas de obras do passado, que de alguma forma ficaram para história e merecem ser lembradas. Hoje começamos por um assunto que nos agrada imensamente por aqui: musicais. Em particular os clássicos da década de 50, 60 e 70, que tanto marcaram época no cinema Hollywoodiano. Qualquer lista sobre o assunto já começaria incompleta por natureza, tamanha diversidade e quantidade de títulos que saíram na época. Assumo então o caráter pessoal da lista, sem definí-la propriamente como um Top 3, mas sim como uma lembrança de três obras importantes em suas épocas, que sem dúvida merecem ser revisitadas, mesmo que com olhar crítico. Obrigado pela leitura e boas sessões a todos!

1) O BOM: A Noviça Rebelde (1965), direção: Robert Wise
(Foto: Reprodução)
"A Noviça Rebelde" é um daqueles filmes difíceis de se odiar. Assim como "O Mágico de Oz", "Branca de Neve e os Sete Anões" e alguns desenhos clássicos como "Tom e Jerry" ou "Pernalonga", a história da família Von Trapp tem uma força muito especial de ser transmitida de geração em geração, sendo apreciada por pais, avós e filhos. Baseado no musical homônimo ("The Sound of Music", em inglês), última obra em conjunto da lendária dupla Rodgers & Hammerstein, o filme venceu 5 Oscars em 1966, incluindo Melhor Filme, e foi um enorme sucesso de bilheteria. 
Mesmo sendo posterior à considerada 'era de ouro dos musicais', que compreendeu as décadas de 30, 40 e 50, "A Noviça Rebelde" é de certa forma o apogeu deste gênero tão próspero na Hollywood da primeira metade do século. Além de um documento impecável e inequívoco de sua época, o filme conseguiu passar no teste mais difícil de todos: o tempo. Hoje, em 2016, mais de 50 anos após sua estreia, mesmo com toda a cafonice inerente ao gênero, "Noviça" continua palatável para novos espectadores, sem perder um pingo do seu encanto ou frescor. 

2) O BREGA: O Rei e Eu (1956), direção: Walter Lang
(Foto: Reprodução)
Se "Noviça" é o exemplo perfeito de obra atemporal, o extremo oposto talvez seja "O Rei e Eu", também de Rodgers & Hammerstein. Embora tenha sido muito bem sucedido em sua época, hoje o filme desaba após qualquer releitura minimamente contemporânea. O texto é machista, desrespeitoso e não tem a menor vergonha em trazer a visão mais caricata possível ao reino de Sião, atual Tailândia. Além disso, por conta do casting quase todo formado por ocidentais, o filme ainda chega ao cúmulo de se consagrar como um propagador do deplorável "yellow face". 
Mas acima de tudo, "O Rei e Eu" é um mar de breguice que nem os mais fervorosos fãs de musicais conseguem defender, desde os cenários e figurinos extremamente exagerados até a figura acidentalmente cômica do 'rei', composta por Yul Brynner de uma forma inverossímel que beira o ridículo, sempre com os braços na cintura e o rosto na diagonal (vide foto acima).
Sobra então ao "O Rei e Eu" não mais que algumas belas canções e a interessante história de bastidores envolvendo o próprio Yul Brynner, que depois do filme voltou a interpretar o personagem nos teatros, ficando no papel por mais de 4.600 performances, mesmo no período em que lutou contra um câncer de pulmão. 
O musical em questão, cuja montagem de 1951 originou o filme, continua sendo alvo de revivals e novas turnês até hoje. O que é compreensível, visto que após rápida pesquisa no YouTube dá para constatar como "The King and I" fica infinitamente melhor nos palcos. A versão nas telas, só mesmo para os muitos curiosos.

3) O FEIO: Hair (1979), direção: Miloš Forman
(Foto: Reprodução)
Fugindo completamente da estética e sonoridade dos musicais da era de ouro, "Hair" é o produto máximo da década de 60 e 70, quando saíram as cenografias caricatas e entraram as guitarras e sons eletrônicos nas trilhas sonoras. Inspirado no movimento hippie, como resposta ao período de Guerra Fria e Guerra do Vietnã, o musical fez barulho nos palcos de Nova York quando estreou em 1968. Se não bastasse a mensagem anti-guerra, e por consequência anti as políticas do governo americano, o espetáculo chocou milhares de espectadores ao apostar em uma cena de nudez frontal coletiva, na época que isso não era nada comum (cena que aliás foi reproduzida na montagem brasileira de 2011). 
Mais de 10 anos depois, a adaptação para os cinemas veio no clima de pós-guerra do Vietnã, causando novamente comoção e polêmica entre multidões de pessoas. Enquanto muitos se encantaram com a história da tribo de Claude e Berger, os defensores mais fiéis do musical original, incluindo os próprios criadores, reclamaram das diversas liberdades criativas tomadas por Miloš Forman, que inclusive alterou drásticamente o final. Mas a verdade é que polêmicas a parte, "Hair" de 1979 ainda hoje é um clássico do gênero musical e uma obra eterna do cinema americano.

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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