'Doutor Estranho': uma boa diversão, com o tom equivocado

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
Antes de tudo: ignore que com os poderes apresentados em "Doutor Estranho" os Vingadores se tornariam irrelevantes. Ignorou? Posso prosseguir? Então vamos lá! Quem for assistir este novo lançamento do Marvel Studios já pode entrar no cinema tranquilo: a diversão é garantida. Se tem uma coisa que funciona na "fórmula Marvel" de fazer filmes é o fator entretenimento. Apesar de ser um personagem categoria C da casa das ideias, originado lá no início da década de 60, nesta versão de 2016, entra a escrita ágil, linguagem acessível e atores conhecidos de Hollywood, para tornar o produto extremamente palatável para as plateias de hoje em dia.

O diretor Scott Derrickson (de "O Exorcismo de Emily Rose"), em sua estreia na direção com o Marvel Studios, surpreende ao comandar maravilhosamente bem as inúmeras sequências de ação. Com todas muito inventivas e até diferentes entre si, o espectador vai sendo apresentado de forma praticamente só visual ao mundo místico dos super-heróis. Ao mesmo tempo, o design de produção e os efeitos especiais ajudam a criar momentos realmente únicos e impressionantes, daqueles tipos que mesmo depois de mais de 100 anos da arte cinematográfica, não são muito comuns de se encontrar. E aqui vale a recomendação de se assistir o filme em 3D. O diretor foi esperto o suficiente em investir em ambientes com muitas camadas, o que torna o efeito de três dimensões mais interessante e imersivo!

(Foto: Reprodução)
O grande problema começa quando a "fórmula Marvel", que se usada até certo ponto garante o padrão de qualidade e diversão, passa a podar o filme e não deixar que o próprio atinja o seu potencial. Desta forma, sempre que o roteiro caminha para soluções mais profundas e diferentes do habitual do "Universo Cinematográfico da Marvel", rapidamente uma mão vinda do além (ou da dimensão negra dos acionistas da empresa) parece forçar o filme a ser uma mera reprodução das produções anteriores. Isso pode ser exemplificado na quantidade excessiva de tiradas cômicas presentes no roteiro. A cada sequência de ação ou momento mais dramático, não tenham dúvida: vai vir uma piadinha. O tipo de coisa que funciona bem quando se tem o Robert Downey Jr. em cena, porque o próprio personagem também permite isso, mas soa forçado e fora de tom após uma cena particularmente pesada entre Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton perto do clímax, só para citar um exemplo.

E falando no clímax, as resoluções que os roteiristas encontram entram naquela categoria do "aceita e não reclama". Mexendo com conceitos físicos extremamente complexos, sem o devido desenvolvimento, o filme nos obriga a acreditar que um dos seres mais poderosos da galáxia poderia ser domado daquela forma quase em tom de farsa. Mesmo para um mundo de super-heróis e seres mitológicos, convenhamos que se forçou um pouco a barra. Isso sem nem entrar no mérito dos conceitos de viagem no tempo, que por si só já tem a capacidade de desabar qualquer roteiro após uma mínima reflexão.

A boa notícia é que apesar destas falhas no texto e no tom do filme, quando sobem os créditos o coração está tão acelerado que é impossível simplesmente não gostar. Além disso, ver Benedict Cumberbatch é sempre uma experiência maravilhosa, principalmente quando ele tem tempo o suficiente para reinar nas telas. "Doutor Estranho" pode então não ser aquele filme inesquecível de super-herói como "Os Vingadores" original ou "Batman: O Cavaleiro das Trevas", mas tem potencial de ser um daqueles que sempre que passa na televisão a gente para pra assistir e nem sabe o porquê. 

Nota: 3/5 (Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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