Festival do Rio 2016 - Dia 10: 'Dois Amantes e um Urso' e 'O Intermediário'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

18) Dois Amantes e um Urso (Two Lovers and a Bear, Canadá, 2016), direção: Kim Nguyen.
(Foto: Divulgação)
"Dois Amantes e um Urso" já começa interessante só pelas suas locações. Passado totalmente em uma região gelada próxima ao Polo Norte, o filme impressiona pelas paisagens e construções congeladas que vemos pelo caminho. A trama acompanha o casal Lucy (Tatiana Maslany, de "Orphan Black") e Roman (Dane DeHaan, de "O Espetacular Homem-Aranha 2") enquanto os dois seguem suas jornadas em direção ao sul. 
Permeados de traumas pessoais, o que torna a vida deles no norte quase um auto-exílio, o casal é o ponto central do filme. Maslany e DeHann interpretam com naturalidade e muita química a dinâmica entre os dois, o que cria uma facilidade de identificação muito forte entre eles e nós, público. O roteiro, sem grandes recursos ou reviravoltas, aposta acertadamente mais em passagens de observação e vivência, do que necessariamente de trama sendo forçada para frente. Portanto temos oportunidade de conhecer melhor os dois personagens, entender suas motivações e seus medos e sofrer ainda mais no final melancólico, mas paradoxalmente apropriado. 
O filme também recorre a alguns elementos fantasiosos, quase surreais, embora por mais divertidos que sejam, não acho que realmente contribuam para a jornada do casal. Sem eles, a história ainda funcionaria e não perderia a força. Mas independente disso "Dois Amantes e um Urso" é uma obra muito delicada, que comprova o talento dos dois atores e acende uma luz sobre o trabalho do diretor Kim Nguyen. Nota: 4/5 (Muito Bom)


19) O Intermediário (Fixeur, Romênia, 2016), direção: Adrian Sitaru.
(Foto: Divulgação)
Impressionante como a Romênia continua com sua produção impecável de cinema dos últimos anos. Responsável também por outras obras como "No Andar Debaixo" (Seleção da mostra 'Um Certo Olhar' de Cannes ano passado) e o maravilhoso "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" (Palma de Ouro em 2007), o cinema romeno nos apresenta em 2016 este novo longa excepcional chamado "O Intermediário". 
A trama segue Radu (Tudor Istodor), uma espécie de facilitador e "estagiário" de jornalismo, que vai junto com dois jornalistas franceses tentar entrevistar uma menina de 14 anos que fora vítima de exploração sexual. O mais fascinante do roteiro é como ele consegue contar não só a história da investigação jornalística, como também mostrar momentos de interação entre os personagens (não necessariamente ligados a trama) e também traçar um crítica ao machismo inerente que temos em nossa sociedade. O mérito do filme é revelar como nossas atitudes são frequentemente permeadas de misoginia, mesmo sem a gente perceber. Usando como exemplo a produção da matéria que denuncia exploração sexual de menores, elemento central da trama, mas que curiosamente seus responsáveis precisam desrespeitar a privacidade e os cuidados que as meninas teriam direito para atingir seus objetivos. Ou seja, um paradoxo em si mesmo.
Contando também com ótimas atuações e um subtexto poderoso, "O Intermediário" é um desses filmes que deveriam ser exibidos em colégios e universidades, como parte de um projeto de educação. A cena em que a menina, interpretada pela estreante (e promissora) Diana Spatarescu, conversa sozinha com o protagonista dentro de um carro é dolorosa, triste e a prova de como as vezes fracassamos como espécie. Nota: 5/5 (Excelente)


20) Um Grande Plano (Film Kteer Kbeer, Líbano, 2015), direção: Mir-Jean Bou Chaaya.
(Foto: Divulgação)
Ai está um país que nunca tinha visto nenhum filme: o Líbano (em coprodução com Qatar, neste caso). Esperando uma produção mais profunda e com ritmo pausado, provavelmente por conta do estigma que o cinema dos "vizinhos" iranianos ganharam na última década, imaginem minha surpresa ao ver que o filme era uma história criminal, com vários momentos de ação e comédia. Pois bem, nessa hora que me dei conta do absurdo da minha ideia inicial, uma vez que o Líbano nem se quer é tão perto assim do Irã, ou tem histórias e mercados de cinema locais parecidos. Vivendo, aprendendo e tomando na cara com nossos próprios preconceitos, certo?
Mas enfim, falando de "Um Grande Plano". A trama segue um narcotraficante que descobre o potencial de uma produção de cinema para exportar grandes quantidades de drogas escondidas dentro das latas de películas. Embora tenha todo um pano de fundo que envolve uma máfia local e problemas passados, a parte mais interessante do roteiro é justamente quando se concentra nas filmagens do filme de fachada. Chegando até a incluir passagens divertidas dos capangas do traficante começando a se envolver com a produção e até tentando dar sugestões artísticas para o diretor. 
O problema de "Um Grande Plano" é a quantidade de furos no roteiro e personagens que convenientemente desaparecem para não se tornarem empecilhos para o final. Infelizmente isto enfraquece o filme, que termina apenas como uma obra divertida e bem humorada, embora tivesse potencial para muito mais. Nota: 3/5 (Bom)

Epílogo do Festival: E com esse post terminamos a nossa cobertura do Festival do Rio 2016. Agradecemos a todos que acompanharam. Espero que tenham gostado e nossas análises tenham ajudado a algum de vocês na hora de compor a programação. Muito obrigado!

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
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