Black Mirror - Falando sobre a 3º Temporada (sem spoilers)

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

(Foto: Divulgação)
"Black Mirror" é uma daquelas séries que ninguém conhecia. Estreou na Inglaterra, em um canal de pouca projeção, foi conquistando aos pouquinhos o seu público, até chegar em 2016 na Netflix e virar o novo hit da televisão. A terceira temporada estreou em Outubro deste ano e já está dando o que falar, como não é de se estranhar levando em conta o histórico da série.
A premissa continua a mesma dos anos anteriores: formato de antologia, sem conexão de trama entre os episódios, mas com uma unidade temática que gira em torno da tecnologia e como ela nos afeta. O mais impressionante é como cada episódio consegue colocar uma lupa no nosso avanço tecnológico e, por consequência, social, de forma a analisar através da ficção os rumos que estamos tomando enquanto seres humanos. 

A temporada começa com "Nosedive", dirigido por Joe Wright (de "Orgulho & Preconceito"), uma trama assustadora sobre uma sociedade em que todos dão notas constantemente para tudo que os outros fazem ou dizem. Assustador não pelo absurdo, mas pela semelhança com a realidade. Afinal é isso que nosso mundo virou, uma série de notas, estrelinhas, curtidas e 'retweetadas', em que números são cada vez mais sinônimos de qualidade. Neste sentido, a performance de Bryce Dallas Howard merece destaque ao evocar praticamente só com maneirismos, nas risadas e nas inflexões que dá nas palavras, como o descolamento da realidade que normalmente só temos na internet, na verdade está passando para a vida real.

Cena do 6º episódio "Hated in the Nation" (Foto: Divulgação)
O segundo episódio "Playtest" também vai na mesma direção de procurar entender o momento que estamos na indústria tecnológica, desta vez focando no mundo dos video-games. Com a diferença, neste caso, do gênero adotado para contar a história. Fugindo um pouco do clima de thriller, drama ou mistério da maioria dos episódios, "Playtest" entra no campo do horror para atingir seus objetivos. O problema é que o comentário da trama em si, é talvez um dos mais bobos e pouco ambiciosos de toda a série. De certa forma, "Black Mirror" parece quase advogar contra um expoente positivo da tecnologia, uma vez que a indústria de games, por mais intensa e real que esteja ficando, ainda é um dos meios tecnológicos mais criativos que existe. Tanto da parte dos desenvolvedores, quanto dos próprios usuários. Pintando então a figura do game developer como um sujeito frio e distante, quase o tornando vilão da história, o episódio perde um pouco a força frente aos demais. Embora de forma alguma chegue a ser ruim, contendo sim alguns elementos muito interessantes.

Já em "Shut Up and Dance", a série volta a dar o tiro certeiro na questão da vigilância ao mostrar a vida de um adolescente que é gravado se masturbando ao assistir pornografia. Mas ai entra a genialidade de "Black Mirror", ao subverter e chocar o conceito de heróis e vilões, ou de certo e errado. E neste ponto, peço perdão em me abster de comentar qualquer outra coisa para preservar a reviravolta de quem por acaso está lendo este texto antes de assistir o episódio. Só basta saber que essa inversão de temática e a manipulação da nossa própria percepção é uma das marcas registradas da série e o que "Shut Up and Dance" faz de melhor. 

Cena do 4º episódio "San Junipero" (Foto: Divulgação)
Pedindo licença para pular o quarto episódio, que comentarei por último, o quinto "Men Against Fire" é mais um daqueles que vem para acabar conosco com uma porrada na cara. Novamente qualquer análise mais detalhada precisaria revelar detalhes importantes da trama, mas é seguro dizer que talvez seja um dos mais pessimistas e terríveis de todos os episódios da temporada. Mostra com competência como podemos ser cruéis enquanto seres humanos, renegando e marginalizando parte de nossa espécie, por meras diferenças geográficas, culturais ou até econômicas. E se incomoda saber a verdade do ponto de vista das forças militares, dói ainda mais ao pensar na realidade dos civis e como puderam chegar naquele ponto. Sem, para isso, a série precisar martelar qualquer informação na nossa cabeça. A percepção vem silenciosa, invadindo o sono e rachando nossa alma, como só "Black Mirror" sabe fazer.

O sexto, e último, episódio chega em formato quase de telefilme ao investir em uma narrativa mais longa de quase uma hora e meia. "Hated in the Nation", assim como "Shut Up and Dance", se passa praticamente no nosso mundo, em uma versão levemente avançada no máximo. Traz para o debate a irresponsabilidade tão preocupante que existe nas redes sociais e como comentários ditos "de brincadeira" podem sim afetar uma pessoa, as vezes até permanentemente. É um episódio que tenta evidenciar o perigo de se confundir liberdade de expressão com direito de ser cruel, acusador, juiz e carrasco de qualquer coisa. Contando também com um excelente elenco composto por Kelly Macdonald (de "Boardwalk Empire" e "Harry Potter e as Relíquias da Morte"), Benedict Wong (de "Perdido em Marte") e Faye Marsay (a criança abandonada de "Game of Thrones"), "Hated in the Nation" é um dos melhores e mais interessantes episódios da temporada.

Por fim, chegamos a "San Junipero", o mais bonito e talvez mais otimista episódio de toda a série, que deixo por último por ser o meu favorito. Diferente das demais histórias, esta revela um raro suspiro de esperança em relação aos avanços tecnológicos, mostrando como podemos sim usar a tecnologia para o bem. Além disso, é uma trama que fala abertamente para as gerações anteriores à do novo milênio, ou seja, todas que viveram de alguma forma na era analógica. Para nós, da década de 90 para trás, a ficção científica sempre viu a modernidade como algo que vai nos levar a destruição. Então esse relance de humanidade e esperança não deixa de ser emocionante e ao mesmo tempo belo. Mas não só isso, o próprio modelo de conexões humanas dos anos 80 e 90, muito mais voltados ao local e vivo, do que ao virtual e distante, é incorporado ao roteiro como uma forma de redenção e não simplesmente de passado. "San Junipero" é realmente um episódio tocante, cheio de empatia e o melhor exemplo para mostrar como toda a máquina por trás deste terrível 'espelho negro' pode sim ser usada para o bem e para promover o amor. Um breve e bem-vindo sopro de otimismo de uma série fascinante que já se acostumou a embaralhar nossos cérebros e acabar com nossas existências impiedosamente.

Nota: 5/5 (Excelente)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!