“Cegonhas” surpreende com bom humor e mensagem humana

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

Nota: 4/5 (Muito Bom)

"Cegonhas - A História que Não te Contaram" (Foto: Divulgação)
Os trailers não estão muito a favor de “Cegonhas”, verdade seja dita. Uma rápida olhada em toda a campanha de marketing, não tem como animar nem mesmo os mais otimistas dos pais. Não sei se é reflexo da quantidade de animações genéricas que os grandes estúdios tem colocado nos cinemas ultimamente, mas este novo projeto da Warner Animation Group parecida destinado a arrancar meia dúzia de sorrisos dos pequenos para logo depois ser esquecido. Felizmente, o filme surpreende com extremo bom humor e uma linda mensagem de humanidade. 

A trama gira em torno de uma empresa de cegonhas que há anos deixou de entregar bebês depois que um dos funcionários surtou e falhou na entrega de uma criança. Dezoito anos se passam, ela cresce e se torna Tulipa (Tess Amorim), uma menina atrapalhada que faz tudo para se encaixar na companhia, aonde vive desde que nasceu. Em mais um de seus equívocos, aciona sem querer a máquina de produção de bebês (pois é) e acaba com uma linda bebezinha de cabelos rosas nos braços. Júnior (Klebber Toledo), uma cegonha que estava prestes a se tornar chefe da companhia, decide ajudar Tulipa a entregar a bebê sem que ninguém saiba, com medo de perder sua promoção.

(Foto: Reprodução)
Diferente de produções mais ousadas de estúdios como a Pixar ("Wall-E", "Toy Story") ou o Ghibli ("A Viagem de Chihiro", "Ponyo"), “Cegonhas” não tem a pretensão de entregar uma história dupla ou aprofundada, que funcione em um espectro para as crianças e em outro completamente diferente para os adultos (vide "Divertida Mente"). Aqui ou ali, até vemos algumas referências destinadas aos pais (em especial, as piadas que envolvem a real origem dos bebês), mas de uma forma em geral todo o humor e temática são bem universais. E não entendam isso como uma crítica! Pelo contrário, o texto funciona muito bem e consegue atingir a compreensão em todas as faixas etárias. E o bacana é ver como os roteiristas alcançaram a medida certa para o humor, que hora depende do timing “físico”, hora se joga no nonsense e as vezes até arrisca um pastelão, sem perder o ritmo ou a graça.

Mas o mais interessante é reparar como o roteiro jamais se deixa cair no moralismo barato. Com a trama que tem, que mexe diretamente com os conceitos de criação e família, tinha tudo para flertar com ideais conservadores e travar o discurso por eventuais motivos religiosos. Mas não, na hora de definir simbolicamente a sua imagem de “família”, o filme entrega uma sequência lindíssima mostrando casais de todas as espécies recebendo seus bebês: héteros, brancos, gays, asiáticos, negros, lésbicas, cegonhas e humanos. Se configurando, talvez, como a primeira vez que uma animação infantil de grande orçamento coloca de forma tão explícita nas telas uma visão humana e contemporânea de família, sem ficar presa a conceitos ultrapassados e mensagens genéricas.

(Foto: Reprodução)
“Cegonhas”, desta forma, mesmo se entregando eventualmente a alguns leves clichês, consegue botar o pézinho (ou seria as penas?) na história do cinema hollywoodiano. Mostra para o público infantil, através de uma embalagem leve e despretensiosa, uma lição de vida e aceitação, que muitas vezes a sociedade falha em ensinar. Afinal, como o filme mostra, família não é um elo de genes ou gênero, e sim de carinho, companheirismo e, sobretudo, amor.

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!