Crítica: 'Batman vs Superman: A Origem da Justiça'; COM Spoilers!

Por Eduardo Cabanas

'Batman vs Superman: A Origem da Justiça' (Foto: Divulgação)

Hollywood vive de tendências: adaptações literárias infanto-juvenis, vampiros, super-heróis, etc. O que dá certo é replicado a exaustão. Desta forma imagino o quão doloroso deve ter sido para Warner, dona do riquíssimo acervo da DC Comics, ver a Disney enriquecer com o ambicioso projeto do universo cinematográfico da Marvel. Apesar do sucesso da trilogia Batman, de Christopher Nolan, não há dúvidas que o sucesso bilionário de Vingadores e seus filmes compartilhados fez tremer os pelinhos mais profundos dos executivos da Warner quando alguém falou as seguintes palavras em seus ouvidos: “Liga da Justiça”.

Aproveitando o mesmo universo criado por O Homem de Aço, “Batman Vs Superman: A Origem da Justiça” é, enfim, a tentativa da Warner de estabelecer sua mega franquia de super-heróis. A grande diferença em relação a Marvel é a falta de tempo de apresentar seus heróis em filmes solos, resultando num inevitável caráter de pressa e improviso em A Origem da Justiça, o que obviamente prejudica o filme. Se por um lado o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer consegue resolver muito bem a apresentação dos personagens e seus conflitos, as soluções encontradas no terço final escancaram a quantidade excessiva de informação que o filme precisava passar para preparar o terreno da Liga da Justiça.


Durante os dois primeiros atos, quando entendemos todas as repercussões da luta entre Superman e General Zod, as consequências para Metrópolis e como isso afetou a trajetória do Homem Morcego, o filme tem seu ponto mais alto. Henry Cavill interpreta com competência os dilemas emocionais e até existenciais do seu personagem, ao mesmo tempo que Ben Affleck destrói como Bruce Wayne, calando milhares de fãs desconfiados que não acreditavam em seu trabalho. Gal Gadot não aparece muito, mas deixa mais do que claro o quanto está confortável de Mulher Maravilha. Já Jesse Eisenberg cria um Lex Luthor do século XXI, com pinta de gênio prodígio, bem diferente de Gene Hackman e Kevin Spacey. E mesmo com a quantidade excessiva de personagens (lembrando que ainda tem Lois Lane, a senadora, Martha Kent, dentre outros) o filme consegue não ser cansativo, graças a montagem fluida e cenas econômicas muito bem desenvolvidas.

Pena que ao ter que resolver a trama, o filme comece a apelar para soluções pobres e convenientes que necessitam um nível de abstração quase impossível de nós espectadores. A começar pelas aventuras de Lex Luthor na nave de Zod, que não só resolve a necessidade de um vilão para luta final, como abre as portas para ameaças maiores para os próximos filmes, num Deus Ex-machina descarado que, tendo ou não explicação nos quadrinhos, jamais encontra sustentação no roteiro do filme. Ao mesmo tempo a resolução da briga (também conhecida como “treta”) entre Batman e Superman é resolvida de forma tão rápida e superficial, na base de uma coincidência de nome entre as mães, que chega a ser engraçado. O surto de flashback que Batman tem ao escutar o nome “Martha” fica parecendo o início patético do Lanterna Verde de Ryan Reynolds, quando o mesmo quase morre por estar paralisado por um flashback. Imagine só, Batman, um dos maiores super-heróis do mundo, depois de 20 anos lutando em Gotham é completamente desarmado ao ouvir um nome (imagino o relatório do necrotério “Causa da Morte: Ataque fulminante de flashback”). Por fim, impossível não comentar os 15-20 minutos finais, quando uma sucessão de reviravoltas acontecem de forma rápida e embolada: Lois joga a lança no poço, volta pra pegar a lança, Superman morre, Lex revela uma ameaça espacial (do nada), Batman decide unir a liga, Clark ia pedir Lois em casamento, Superman volta. Gostem ou não os fãs dos “fan services” (e aqui me incluo, adoro o Batman, super-heróis e referências aos quadrinhos), o fato é que o roteiro não soube trabalhar todos os elementos e acabou se embolando por completo no final.


Não diria que o filme é um desastre como parte da internet parece ter cismado, muito pelo contrário, é uma produção justa que possui diversos momentos muito bons e consegue introduzir a Liga da Justiça minimamente. Mas está muito longe de ser um grande filme, mesmo dentro do “gênero” dos super-heróis. Zack Snyder parece não conseguir largar seu vício de tratar tudo com imensa seriedade e solenidade (vejam o final com sua música épica e balas de canhão em câmera lenta), que se funcionava em 300 e Watchmen, em Batman vs Superman acaba sabotando uma das coisas mais legais dos quadrinhos de super-heróis, que é justamente a irreverência para se tratar assuntos tão irreais e pouco críveis. Enquanto até Christopher Nolan, mesmo com sua banca de super cineasta, conseguiu fazer sua versão thriller do Batman, misturando bons elementos de realismo e irreverência, que se não era a trilogia de super-heróis que os fãs mereciam, era a que o mercado precisava (citando aqui a fala do Comissário Gordon em O Cavaleiro das Trevas), Zack Snyder joga seu filme num limbo extremamente perigoso. A Origem da Justiça não é nem o filme que a gente merecia, nem o que a gente precisava. Mas espero estar muito errado, por que sinceramente não quero viver num mundo em que não tenha mais filmes dos heróis da DC. Fã é fã, o que posso fazer?

NOTA: 3/5 (BOM)

*** Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc) - Produtor Cultural, cinéfilo e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: https://player1viajante.wordpress.com/

Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!