‘Kiss me, Kate’ traz críticas modernas, mas sem fugir do clássico

Por Rodrigo Vianna


José Mayer em "Kiss me, Kate" (Foto: Alessandra Tolc/Divulgação)

Sempre que se ouve falar numa estreia dos diretores Cláudio Botelho e Charles Moeller, uma coisa é certa: vem mais um grande sucesso por aí. Não foi diferente com “Kiss me, Kate – O Beijo da Megera”, novo musical da dupla, que estreou no Teatro Bradesco, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Primeiro musical de Cole Porter montado na íntegra no Brasil, ‘Kiss me, Kate” traz piadas modernas e críticas ao cenário político do Brasil e a alguns musicais brasileiros. É uma tentativa de resgate do teatro musical. 

É uma iniciativa louvável dos diretores. Um dos pontos altos do espetáculo é a inesquecível cena “Chama o Shakespeare”, com os atores Chico Caruso e Will Anderson, que interpretam dois Gangsters super simpáticos. A letra faz uma homenagem aos musicais e aos profissionais que doam as suas vidas para colocar um espetáculo em cena. Ao mesmo tempo, faz uma crítica à enxurrada de musicais biográficos que tomou os teatros nos últimos anos. Sem dúvida, inesquecível.

(Foto: Reprodução)

“Kisse me, Kate” já pode ser considerado um marco na trajetória da dupla de diretores. Há 15 anos, Charles Möeller e Claudio Botelho despontaram para o sucesso com “Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava” e abriram caminho para todo o renascimento que o teatro musical teve no Brasil desde então. Na época, a montagem de “Kiss me, Kate” era um sonho distante, devido a todas as exigências técnicas e artísticas do espetáculo. Depois de 35 espetáculos e toda uma nova geração de profissionais formada neste intervalo, a dupla finalmente mostra a sua versão para o musical. 

No papel do protagonista Fred Graham temos o ator José Mayer, que já trabalhou com a dupla em “Um Violinista no Telhado” (2011). Mayer fez o dever de casa e consegue dar o tom certo ao personagem. Vaidoso e galanteador, ele convence logo na primeira cena, e faz o que muitos atores da atualidade não conseguem num musical: canta. Sim, José Mayer além de um grande ator, é um ótimo cantor, fazendo jus a aposta dos diretores, que acreditam que o ator possui todas as características que este protagonista pede. José Mayer é, de fato, um profissional completo.

Amor e ódio
Ao seu lado, temos a atriz Alessandra Verney, no papel de Lilli Vanessi, ex-esposa do diretor Fred Graham. Definitivamente desempenhando um de seus melhores papéis, Alessandra soube dosar, e mostra uma Kate sem exageros, fugindo do caricato. Aliás, esse é um dos grande desafios ao se montar “A Megera Domada”, de Shakespeare, fugir do caricato. Muitos não conseguem, mas a experiência de José mayer e Alessandra Verney fala mais alto e o que se vê no palco são um (ex) casal em clima de amor e ódio, uma verdadeira relação de gato e rato.

Fred Graham é dono de uma companhia de teatro que segue em turnê com uma montagem de “A Megera Domada”. Já Lilli Vanessi é uma diva do teatro, a estrela do espetáculo. É o ponto de partida para um divertido passeio pelos bastidores da companhia e pela comédia de erros que se desenvolve dentro e fora de cena.

A peça dentro da peça
A trama da ficção reflete também a personalidade do quarteto formado por Fred, Lilli, a novata Louis Lane (Fabi Bang) e Bill (Guilherme Logullo), que contrai uma dívida de jogo em nome do patrão. Fabi Bang possui um talento inquestionável, mas traz uma Louis Lane que lembra a personagem Hedy La Rue, de Adriana Garambone, em “Como Vencer na Vida sem Fazer Força”. Não que tenha ficado ruim, mas para quem é fã de musicais como eu, é impossível não comparar.

No palco da ficção, Mayer e Verney vivem um dos mais celebrados casais do teatro shakespeareano, Petruchio e Catarina. Uma peça dentro de uma peça. Uma adaptação inteligente, que prende o público do começo ao fim. O início do espetáculo é um pouco arrastado, mas ganha força quando a montagem de “A Megera Domada” começa a ser apresentada. A partir daí, o musical gira em torno da comédia, que mistura o clássico pelos figurinos de Carol Lobato e cenários de Rogério Falcão.  

“Kiss me, Kate” reúne pérolas de seu brilhante cancioneiro, como ‘So In Love’ e ‘Another Op’nin’, Another Show’, todas vertidas para o português por Claudio Botelho, que recentemente estrelou o show ‘Cole Porter e Meus Musicais de Estimação’. Formada por 13 músicos, a orquestra terá a regência do maestro Marcelo Castro, parceiro da dupla em ‘A Noviça Rebelde’, ‘Gypsy’, ‘Um Violinista no Telhado’ e ‘O Mágico de Oz’.

Assinada por Rogério Falcão, a cenografia fará uso dos antigos painéis teatrais de tecido, pintados à mão, e também terá dezenas de adereços manufaturados. Os figurinos, a cargo de Carol Lobato, vão seguir o mesmo conceito para situar o espectador na época e no local (Baltimore, 1948) em que a ação se desenrola. Outros antigos colaboradores de Möeller & Botelho completam a ficha técnica, como o iluminador Paulo Cesar Medeiros, o coreógrafo Alonso Barros e a coordenadora de produção Tina Salles.

(Foto: Reprodução)

"Kiss me, Kate – O Beijo da Megera" é o quarto musical produzido integralmente pela M&B, produtora que Möeller & Botelho criaram em 2013 para montar seus próprios espetáculos. O pontapé inicial foi com ‘Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos’, sucesso em quatro temporadas pelo Brasil e com previsão de uma turnê portuguesa em 2016, ‘Os Saltimbancos Trapalhões’, responsável pela estreia de Renato Aragão em um musical aos 80 anos, e o sucesso ‘Nine – Um Musical Felliniano’, que teve bem-sucedida temporada de estreia em São Paulo e está em cartaz no Rio de Janeiro.

Cole Porter, o anjo seguidor de Möeller & Botelho
O sonho de trazer ‘Kiss me, Kate’ para o Brasil começou em 1999, quando Charles e Claudio assistiram à remontagem americana do clássico na Broadway. Na época, a dupla se dedicou a uma criteriosa pesquisa sobre a vida e a obra de Cole Porter e Claudio começou a escrever algumas versões de suas letras. O trabalho resultou em ‘Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava’, musical que contava a vida do compositor sob o ponto de vista das mulheres importantes em sua trajetória. Tudo feito com pouquíssimos recursos financeiros e a previsão de uma curta temporada.

A montagem foi um êxito instantâneo, ficou quatro anos em cartaz – incluindo uma temporada de três meses em Lisboa – sempre com sessões extras e matinês. Depois dela, a dupla nunca mais parou de produzir, em um histórico que se confunde com o renascimento do Teatro Musical no Brasil.

(Foto: Reprodução)

Um clássico sessentão em ótima forma
"Kiss me, Kate" é o maior sucesso de toda a carreira de Cole Porter. A primeira montagem estreou em dezembro de 1948 e alcançou a marca de inacreditáveis 1077 apresentações, além de receber cinco prêmios Tony nas categorias Musical, Compositor, Autor, Figurino e Produção. A versão inglesa estreou em 1951 e chegou a mais de 400 sessões. 

Em 1953, o musical deu origem a um filme homônimo, com Howard Keel (Fred Graham / Petruchio) e Kathryn Grayson (Lilli Vanessi / Catarina) e direção de George Sidney. O cinquentenário da obra (1999) foi comemorado em grande estilo, com um aclamado revival na Broadway, indicado a 12 prêmios Tony e premiado, assim como o original, com cinco troféus: Melhor Revival, Ator, Direção, Orquestração e Figurino. A montagem recebeu ainda 10 indicações e seis prêmios Drama Desk.

(Foto: Reprodução)

Serviço:

"Kiss Me, Kate - O Beijo da Megera"

Música e letras de COLE PORTER
Libreto de Sam e Bella Spewack
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
Temporada de 30 de outubro a 13 de dezembro
Sextas, às 21h30. Sábados, às 21h. Domingos, às 20h.
Teatro Bradesco / Shopping Village Mall
Ingressos a R$ 150 (Plateia baixa), R$ 120 (Plateia alta), R$ 100 (camarotes), R$ 80 (Balcão nobre) e R$ 50 (frisas).

Ficha Técnica

Elenco: José Mayer, Alessandra Verney, Fabi Bang, Guilherme Logullo, Chico Caruso, Will Anderson, Léo Wainer, Jitman Vibranovski, Ruben Gabira, Ivanna Domenyco , Igor Pontes, Leo Wagner, Marcel Octavio, Beto Vandesteen, Augusto Arcanjo, Giselle Prattes, João Paulo De Almeida, Lana Rhodes, Mariana Gallindo, Patricia Athayde, Thiago Garça e Tomas Quaresma.

COLE PORTER
Música e letras

SAM E BELLA SPEWACK
Texto

ROBERT RUSSELL BENNETT
Orquestração Original

MARCELO CASTRO
Direção Musical / Regência        

ROGÉRIO FALCAO
Cenário

CAROL LOBATO        
Figurinos

ALONSO BARROS
Coreografia

MARCELO CLARET
Design de Som

PAULO CESAR MEDEIROS      
Iluminação        

CLAUDIA COSTA / CLAUDIO BOTELHO
Tradução dos diálogos

BETO CARRAMANHOS
Visagismo

MARCELA ALTBERG
Produção de Elenco

CRIS FRAGA
Diretora Residente    

BEATRIZ BRAGA
Direção de Produção

CARLA REIS
Gerência de Produção

EDSON MENDONÇA
Produção Executiva

TINA SALLES        
Coordenação Artística

CHARLES MÖELLER
Direção                                

CLAUDIO BOTELHO
Versão Brasileira / Supervisão Musical

Realização
MÖELLER & BOTELHO

Orquestra: MARCELO CASTRO (Regência); KELLY DAVIS (Violino 1), LUIZ HENRIQUE LIMA (Violino 2), SAULO VIGNOLI (Cello), ZAIDA VALENTIM (Teclado 1), GUSTAVO SALGADO (Teclado 2), RAPHAEL NOCCHI (Piccolo, Clarineta, flauta e sax alto), GILSON BALBINO (Clarineta e sax alto), WHATSON CARDOZO (Clarone, clarineta e sax barítono), MATHEUS MORAES (Trompete e Flügel) VÍTOR TOSTA (Trombone), OMAR CAVALHEIRO (Contrabaixo) e MARCIO ROMANO (Bateria e percussão).
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