Gracindo Jr. e Laila Garin estrelam versão musical de ‘O Beijo no Asfalto’

Atores Suely Franco e Francisco Cuoco prestigiaram coletiva de "O Beijo no Asfalto" (Foto: Nó Produções)

Dois grandes nomes do teatro brasileiro estão no elenco da versão musical de “O Beijo no Asfalto”, que estreou no dia 9 de outubro, no Teatro SESC Ginástico, no Centro do Rio de Janeiro. Gracindo Júnior dará vida a Aprígio e Laila Garin, a Selminha. Lançado em 1960, o texto foi adaptado dezenas de vezes para o teatro e em duas versões cinematográficas. Agora, ao completar 55 anos, ele volta aos palcos em sua primeira versão musical. O Contracenarte acompanhou a coletiva de imprensa do musical, que aconteceu na quarta-feira (7).

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Produzido por Claudio Lins e por Isabel Themudo, “O Beijo no Asfalto – O Musical” terá, ainda, no elenco o próprio Claudio Lins, vivendo Arandir; Yasmin Gomlevsky como Dália; Claudio Tovar no papel do Delegado Cunha; e Thelmo Fernandes interpretando o jornalista Amado Ribeiro. Completam o elenco Jorge Maya, Janaina Azevedo, Ricardo Souzedo, Gabriel Stauffer, Pablo Áscoli, Juliane Bodini e Juliana Marins.

(Foto: Nó Produções)

Para criar as canções, o ator e compositor Claudio Lins mergulhou durante quatro anos em uma extensa pesquisa sobre a sonoridade musical dos anos 60, período em que se passa a trama, buscando um resultado que soasse vintage, canções de estruturas contemporâneas, mas que mantém referências musicais da época.  O resultado foi cerca de 20 canções, 15 das quais deverão estar no palco – executadas por uma banda ao vivo, com bases pré-gravadas que lembram o som dos rádios nos anos 60.

"Não foi um trabalho fácil, foi um tanto de inspiração e um muito de transpiração" afirma Claudio, que garante que durante todo esse tempo jogou fora diversas canções que, depois de prontas, não se adequavam ao tema. Cauby Peixoto, Tito Madi, Vicente Celestino (um dos favoritos de Nelson), Orlando Dias, Roberto Silva, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, todos eles foram fonte de inspiração. “Especialmente Dolores Duran, cujo universo se encaixa perfeitamente com os personagens de Nelson”, completa. As novas músicas, aliás, serão intercaladas com trechos de algumas canções de época, cujas sonoridades ou temas são semelhantes.

A ideia de transformar Nelson em um espetáculo musical surgiu em 2009 durante a temporada de “Gota D’Água”, que tinha direção de João Fonseca e a presença de Cláudio no elenco. “Comentei com João que, como ator, tinha o sonho de montar um espetáculo do Nelson. E aí ele sugeriu fazermos um musical. Minha primeira reação foi de dúvida, mas depois de algumas conversas eu já estava levantando a produção”, lembra Cláudio.

João Fonseca que já dirigiu quatro montagens de Nelson e tem nele seu ator favorito, considera o Beijo no Asfalto um texto redondo, e diz “que acrescentar músicas a uma peça pronta e tão consagrada é o maior desafio, mas um desafio prazeroso e transformador. Será um novo Beijo no Asfalto, uma vez que as músicas irão trazer novas palavras aos personagens; será como se novas cenas fossem inseridas dentro da peça”.

Na ficha técnica, além de João Fonseca e Délia Fischer, estão Nello Marrese, que assina os cenários; Luis Paulo Nenén, a Iluminação; Claudio Tovar, os figurinos; e Sueli Guerra na Direção de Movimento, entre outros.

O Beijo
Praça da Bandeira, Rio de Janeiro, uma tarde no início da década de 60. Um homem na calçada perde o equilíbrio e cai na frente de uma lotação, que o atira longe. A primeira pessoa a socorrê-lo é Arandir. Ao se debruçar sobre o moribundo, este pede um último desejo: um beijo. Arandir o beija. E logo depois o rapaz morre.

O episódio é presenciado por Aprígio, sogro de Arandir e pelo jornalista Amado Ribeiro. O astuto repórter policial do jornal Última Hora vislumbra no acontecimento a possibilidade de estampar na primeira página do dia seguinte uma história de manchete bombástica: O Beijo no Asfalto. Para isso, convence o delegado Cunha a ajudá-lo na coação de testemunhas e na comprovação de fatos que pouco terão a ver com a realidade. O que importa é vender jornal.

E assim, os dias subsequentes se tornam um inferno na vida do pacato Arandir, um funcionário de escritório recém-casado com a sonhadora Selminha. Namorados desde a infância, os dois moram ainda com a irmã mais nova de Selminha, Dália, e recebem sempre a visita do pai das meninas, Aprígio. Levam uma vida morna e feliz de uma família de subúrbio carioca.

(Foto: Nó Produções)

Mas a partir da reportagem de capa no Última Hora, a masculinidade de Arandir é posta a prova publicamente. Os fatos se confundem com uma ficção rocambolesca e Arandir passa a sofrer com a maledicência moral que vem de todos os lados – da imprensa, da polícia, da vizinhança, dos colegas de trabalho. Até chegar ao ponto da própria família passar a acreditar mais no jornal do que nele.

A Peça
A peça “O Beijo no Asfalto” foi escrita em 1960, por um autor maduro. Nelson Rodrigues tinha 47 anos e era seu 13° texto teatral. Além do mais, há cerca de uma década escrevia diariamente a coluna “A Vida Como Ela É” no jornal Última Hora, experiência enriquecedora na construção de tramas e personagens. Seu domínio era tanto que, segundo ele próprio, demorou apenas 21 dias para escrever a peça. Era uma encomenda feita pela atriz Fernanda Montenegro para sua companhia, a Sociedade Teatro dos Sete. 

A peça estreou no dia 07 de julho de 1961, com direção de Fernando Torres e cenários de Gianni Rato. No elenco, além de Fernanda, estavam Oswaldo Loureiro, Sérgio Britto, Mario Lago, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco e Suely Franco, entre outros. Desde então a peça teve inúmeras montagens e duas adaptações para o cinema. A primeira em 1963, com direção de Flávio Tambellini, tinha Reginaldo Farias, Norma Blum, Xandó Batista e Jorge Dória nos papeis principais. A segunda em 1981, com direção de Bruno Barreto, era estrelada por Ney Latorraca, Christiane Torloni, Tarcísio Meira, Daniel Filho e Lídia Brondi. O Beijo no Asfalto também foi adaptada para os quadrinhos, através do trabalho de Arnaldo Branco e Gabriel Góes.

Apesar dos percalços e de muita polêmica, a primeira montagem de O Beijo no Asfalto acabou se tornando o maior sucesso de Nelson Rodrigues até então. Ao todo foram sete meses em cartaz, com duas temporadas no Rio de Janeiro (Teatros Ginástico e Maison de France) e viagens pelo sul do país. O sucesso só não foi maior devido à renúncia de Jânio Quadros, quando a peça completava cerca de um mês e meio de temporada. Obviamente, o fato fez o Brasil parar por quase 10 dias, ficando à beira de uma guerra civil.

E não foi um sucesso tranquilo. Mesmo sem ter nenhum palavrão (aliás, nenhuma das peças de Nelson contém palavrões), muitos espectadores se sentiram ultrajados com a montagem. O que fez com que o próprio autor fosse para o saguão do teatro para interpelar os espectadores que saiam no meio do espetáculo. Quase sempre, convencendo-os a voltar.

A história de “O Beijo no Asfalto” é baseada em fatos reais ocorridos na época. O repórter Pereira Rego, do jornal O Globo, foi atropelado por um arrasta-sandália (espécie de ônibus antigo) e antes de morrer pediu um beijo para uma jovem que tentava socorrê-lo. A personagem do repórter policial Amado Ribeiro também existiu, e era colega de Nelson na redação do Última Hora. Aliás, Nelson gostava de colocar seus colegas como personagens de suas crônicas. Já tinha usado o próprio Amado Ribeiro como personagem no livro “Asfalto Selvagem ou Engraçadinha”.
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