Cinema: Crítica da animação 'Divertida Mente'

Por Eduardo Cabañas

Cenas da animação "Divertida Mente" (foto: Divulgação)
Quando um filme te joga pra fora do cinema completamente sem palavras é sempre um bom sinal. A Pixar costumava ter essa habilidade, dona de uma filmografia impecável até 2010. Mas sabe-se lá por que, após Toy Story 3, o estúdio perdeu consideravelmente sua força, investindo em projetos fracos e muitas vezes um pouco vergonhosos como o chatíssimo Universidade Monstros. Felizmente, com a volta de Pete Docter (de Monstros S.A. e UP), a Pixar ressurge das cinzas (ou do lixão das memórias, quem sabe) com esse Divertida Mente, o seu filme mais maduro e tematicamente ambicioso até hoje.

Tentando retratar a complexidade das emoções humanas através de personagens fofinhos e engraçados, o roteiro de Pete Docter e sua equipe consegue uma inesperada mistura, ser muito divertido para os pequenos, assim como extremamente instigante para os adultos. A interação entre a Alegria (Miá Mello), Tristeza (Katiuscia Canoro), Raiva (Léo Jaime), Medo (Otaviano Costa) e Nojinho (Dani Calabresa), não só entre eles mesmos, como com o próprio ambiente, revela uma criatividade sem igual dos roteiristas e do departamento de arte do filme, que consegue através de informações visuais, explicar todo esse mundo novo para os espectadores em pouquíssimos minutos. Então logo entendemos que quando a paleta de cores do filme tende pro azul, algo de muito errado está acontecendo. Assim como quando a cor se aproxima do amarelo, uma sensação de segurança toma não só nossa “protagonista”, como nós mesmos.

Mas o mais fabuloso mesmo desse projeto é como ele consegue nos despertar memórias e sentimentos adormecidos, assim como a Alegria e Tristeza, as personagens, o fazem na pequena Riley. E é com uma mistura de alegria e tristeza, os sentimentos, que tudo guardado no lugar mais profundo da nossa mente começa a voltar, ao mesmo tempo em que a ação do filme se desenrola. Duas telas, uma na nossa frente, outra em nossa mente, que interagem e dependem uma da outra pra fazer com que a experiência seja completa. Em um momento particular, dotado de uma delicadeza e imensidão de significados difíceis de explicar, quando o amigo imaginário da Riley criança se sacrifica para salvar a Riley crescida, o filme atinge seu ponto mais maduro e complexo. Trazendo como consequência uma série de suspiros e choros na sala de exibição, não por causa de um melodrama barato ou tragédia forçada, mas por pura identificação entre personagens e público, daquela mais profunda e bela que o cinema consegue criar.

Espero que Divertida Mente, no futuro, seja lembrado como o início da retomada da Pixar, uma produtora que sempre foi uma das mais criativa e ambiciosa do mundo. Existe um lugar no cinema, como mídia e arte, e, por consequência, no coração de todo cinéfilo, que só um filme da Pixar pode ocupar. E são projetos assim que a gente espera do estúdio de John Lasseter e sua equipe, capaz de não só nos divertir e fazer sonhar, como trazer de volta sentimentos e lembranças que a gente nem sabia que ainda existiam.

Nota: 5/5
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