Morre aos 106 anos o cineasta português Manoel de Oliveira

(Foto: Reuters/Jean-Paul Pelissier/Files)
O cineasta português Manoel de Oliveira morreu na manhã desta quinta-feira (2), aos 106 anos, em sua casa no Porto, em Portugal, vítima de uma parada cardíaca. Em noventa anos de uma premiada carreira, ele produziu mais de 30 longas-metragem, mantendo uma média de um filme por ano desde 1985.

"Se penso em parar? Se paro de filmar, me aborreço e morro. Tenho na cabeça um monte de projetos. Mas agora não sei se a vida vai me dar tempo de fazê-los.", disse o cineasta que lançou seu último filme, "O Velho do Restelo", no Festival de Veneza em 2 de setembro de 2014, poucos meses antes de completar 106 anos de idade.

O primeiro ministro português Pedro Passos Coelho disse em um comunicado que Oliveira "foi uma figura central na projeção internacional do cinema português e, através de seus filmes, da cultura portuguesa e sua vitalidade". O presidente Anibal Cavaco Silva disse em rede de televisão que "Portugal perde uma das maiores figuras de sua cultura contemporânea."

De Piloto de Corrida a Cineata de Narrativas

Um cineasta de narrativas tidas como lentas, o português Manoel de Oliveira foi piloto de corridas antes de abraçar o cinema. Sua primeira visita ao Brasil foi em 1938, quando, aos 26 anos, competiu no circuito da Gávea, um traçado de 11 km que contornava o morro Dois Irmãos, da Marquês de São Vicente até a avenida Niemeyer. A prova foi vencida pelo italiano Carlo Pintacuda, “o heroi da Gávea”. Sem que tenha sido registrada na história a colocação em que terminou, a passagem de Oliveira permaneceu só na memória do cineasta, que narrava a destreza extrema necessária para enfrentar as mais de cem curvas do percurso.

Nascido no Porto, em uma família rica, com raízes no setor industrial, Manuel Cândido Pinto de Oliveira interessou-se primeiro pelos esportes — ginástica, natação e atletismo, além das corridas. Só depois veio o cinema, levado pelo pai para assistir aos filmes do inglês Charles Chaplin (1889-1977) e do francês Max Linder (1883-1925).

‘A ideia de que o cinema é movimento ilude. Quando se diz que o cinema é movimento pergunta-se: é o movimento dentro do quadro ou é a câmera a virar cambalhotas?’

Já desportista, aos 20 anos inscreveu-se na Escola de Atores de Cinema. Em 1928, foi figurante em “Fátima milagrosa”, de Rino Lupo. Em 1931, conclui seu primeiro filme, “Douro, Faina Fluvial”, documentário que dividiu a crítica. Já desde aí a lentidão do desenrolar da ação era apontada como falha. Ao longo dos anos, somaram-se acusações de que dava mais importância às palavras do que aos atos. A câmera raramente se deslocava e, quando o fazia, eram movimentos sutis para mostrar um objeto ou as expressões corporais de um ator.

Com mais de 70 anos de carreira e algumas dezenas de filmes depois, ainda enfrentaria as mesmas críticas, às quais respondia: “A ideia de que o cinema é movimento ilude. Quando se diz que o cinema é movimento pergunta-se: é o movimento dentro do quadro ou é a câmera a virar cambalhotas? Hoje o cinema, em razão das facilidades que as máquinas têm de se moverem, tem excesso de movimento da câmera. Vai, procura, sobe, desce... Às vezes, estonteante. Quanto mais a técnica avança, mais eu recuo, porque a técnica desumaniza”.

Escassez de filmes durante a Ditadura de Salazar

Em 1942, dirigiu "Aniki Bobó", relato de um grupo de crianças nas ruas do Porto, precursor do neorrealismo italiano. Lançado no meio da Segunda Guerra Mundial e no auge do regime de Antonio Salazar, o filme foi mal recebido pelo público. Oliveira então passou a se dedicar aos negócios da família e só voltou ao cinema 14 anos depois, com o curta-metragem "O pintor e a cidade", de 1956.

Um novo longa viria apenas em 1963, quando lançou "O ato da primavera", mistura de documentário e ficção no qual é encenada uma celebração popular da Paixão de Cristo. No ano seguinte, alguns diálogos no média metragem "A caça" lhe renderiam dez dias de prisão.

“Foi uma experiência horrível. Não tanto pelas privações ou incômodos físicos. Não fui espancado nem torturado, mas pela intolerável monotonia. Enterrado vivo, pensei em suicidar-me várias vezes. Chorava de tédio. Dava murros nas paredes”, narrou em uma entrevista.

Com a censura e a falta de financiamento, os trabalhos de Oliveira nessa época foram escassos em número e duração. Na maior parte das vezes, ele produzia média metragens. Apenas em 1972 retornou à ficção com "O passado e o presente" e dois anos depois, com a Revolução dos Cravos, deu início a um novo período criativo. Com o tempo acabaria recuperando parte do material iniciado e não completado durante o difícil período da ditadura, como é o caso do livreto no qual se baseia seu filme "O estranho caso de Angélica", de 2010.

— Foi sensacional ser dirigida por ele. Considero uma experiência do mesmo nível das que tive com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos — diz Ana Maria Magalhães, atriz brasileira que atuou em "O estranho caso de Angélica". — Manoel de Oliveira era um dos grandes do cinema, um artista completo. Ele desenvolveu um estilo próprio de trabalho. Lembro que o centro do quadro é sempre iluminado. Ele era muito vigoroso com a marcação do texto. Tinha um ar teatral, mas Manoel tinha uma cultura de cinema fabulosa. Ele fala de Portugal e do Brasil de uma maneira extraordinária. Estou sentindo muito essa morte.

‘Faço um cinema de resistência, porque o cinema abusa em excesso da violência pela violência, do sexo pelo sexo e isso não leva a nada, só estimula a um tipo de desumanização’

Manoel de Oliveira obteve reconhecimento internacional a partir dos anos 1960, em especial após mostra de sua obra na Cinemateca de Henri Langlois em Paris, em 1965. Vinte anos depois, ganhou o Leão de Ouro em Veneza com “Le soulier de satin” (1985). Levou a Palma de Ouro de Cannes por “A divina comédia” (1991). Ganhou ainda outro prêmio em Cannes por sua cinematografia.

Oito de seus longas (e uma peça) foram baseados na obra da escritora Agustina Bessa-Luís, sua conterrânea. Apesar de muito amigos, a relação era conflituosa. O cineasta até brincava: “Agustina gosta de não gostar dos meus filmes, mas eu não gosto que ela não goste”. A primeira colaboração entre os dois foi em "Francisca", de 1981, inspirado pelo romance histórico "Fanny Owen", de 1979. Outros filmes foram "O convento", de 1995, com Catherine Deneuve e John Malkovich, e "Porto da minha infância", de 2001, do qual Augustina participou lendo um texto sobre a condição da mulher.

— Desde criança que me habituei à presença do Manoel, por ele ser casado com uma amiga de minha mãe, e pai de amigos meus. E por ser um habitante do mesmo universo, violento e misterioso, o Douro, que tão fantasticamente retratou nos seus filmes. Acompanhei as filmagens das obras adaptadas de minha mãe, e assisti às birras e desacordos entre ambos, onde a grande amizade prevalecia. Sinto o desaparecimento do Manoel como o afastamento de uma pessoa que caminhou na mesma estrada da vida com minha mãe, e outros amigos comuns — lamentou Mónica Baldaque, filha de Agustina.

Em 2009, estreou "Singularidades de uma rapariga loura", protagonizado por seu neto, Ricardo Trepa. Oliveira se baseou num conto homônimo de Eça de Queiroz, transferindo a história do século XIX ao século XXI. Depois realizou, com Pilar López de Ayala como atriz principal, o já mencionado "O estranho caso de Angélica'.

Quando completou 100 anos, em 2011, teorizou sobre a maturidade: “Com a idade, perde-se a juventude, mas, à medida que se perde a juventude e certas vitalidades próprias da juventude, aumenta-se a sabedoria, a prudência e várias outras qualidades. Enfim, Deus dá as nozes a quem não tem dentes”.

Filme inspirado em Machado de Assis estava nos planos

Era o cineasta mais velho do mundo em atividade. “Faço um cinema de resistência, porque o cinema abusa em excesso da violência pela violência, do sexo pelo sexo e isso não leva a nada, só estimula a um tipo de desumanização”, dizia.

Sem diminuir o ritmo, fez um par de curtas — entre eles "Do visível ao invisível", parte do filme coletivo "Mundo invisível" — e lançou em Veneza "O gebo e a sombra", em 2012, com Claudia Cardinale, Michael Lonsdale, sua musa Leonor Silveira e Jeanne Moreau, sobre as consequências da crise econômica em Portugal e na Europa.

Seu penúltimo trabalho foi "O conquistador conquistado", um curta metragem inspirado na escolha de Guimarães como Capital Européia da Cultura, em 2012. Em abril do ano passado rodou seu último filme, "O Velho do Restelo", com seus habituais parceiros Luís Miguel Cintra, Diogo Dória e Ricardo Trepa.

Oliveira planejava filmar o longa-metragem “A igreja do diabo”, a partir de contos de Machado de Assis, tendo nos papéis principais Lima Duarte e Fernanda Montenegro, dois atores dos quais gostava bastante. “Admiro muito a naturalidade dos atores brasileiros”, afirmava. Lima Duarte o havia encantado desde o papel de Zeca Diabo em “O Bem-Amado”. Fernanda Montenegro chegou a ser convidada para o papel principal de “O estranho caso de Angélica” (2010), mas já havia assumido compromissos antes de seu contato.

Para escrever o roteiro do filme baseado nas obras do escritor brasileiro, Oliveira encorpou o conto “A igreja do diabo” com outros dois, também de Machado, "Missa do Galo" e "Ideias do canário".

— Ele sempre buscava o diálogo com a literatura. Mesmo nos filmes que não eram adaptados de peças literárias, a palavra era sempre muito importante. A imagem visual parte sempre da imagem verbal: conversa-se muitos nos filmes de Manoel, há sempre longos diálogos filmados. Se hoje em dia o cinema se caracteriza pela ação, Manoel se funda pela palavra. E esse permanente diálogo com a expressão verbal é absolutamente natural nele, um caso muito particular na cinematografia mundial — explica José Carlos Avellar, crítico de cinema, ensaísta, consultor e professor.

Manoel de Oliveira deixa a mulher, Maria Isabel Carvalhais, de 97 anos, quatro filhos e cinco netos.

Fonte: O Globo - Online

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