‘S’imbora – O Musical’ canta vida de Wilson Simonal com maestria

Por Rodrigo Vianna

Ícaro Silva vive o cantor Wilson Simonal nos palcos (Foto: Divulgação)

Nem vem que não tem, “S’imbora – A História de Wilson Simonal” é mais uma obra prima do teatro musical brasileiro. Prepotência minha ao afirmar isso? Acho que não. Em quase três horas de espetáculo, o que se viu no palco do Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio de Janeiro, na noite deste sábado (28) foi um verdadeiro show de música, dança e interpretação, tendo como fundo uma história emocionante. Para mim que não tive a oportunidade de conhecer Wilson Simonal, foi uma forma de voltar à década de 70 e viver a “pilantragem” como se unisse o passado e o presente.

Com direção de Pedro Brício e texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade. “S´imbora, O Musical – A história de Wilson Simonal” estreou no dia 16 de janeiro e desde então tem sido uma disputa conseguir um ingresso. Também, não é pra menos. O espetáculo faz jus ao homenageado, e revive com maestria a glória e decadência daquele que é considerado um dos maiores artistas da música brasileira. Na mesma linha dos musicais “Elis”, “Tim Maia”, “Cássia Eller” e “Cazuza”, “S’imbora” é uma peça autoral, mas com ingredientes capazes de agradar público de todas as idades.

(Foto: Divulgação)

A trajetória de Wilson Simonal levou essa máxima às últimas consequências. O cantor se transformou em ídolo nacional de forma meteórica, suas músicas estiveram no topo das paradas. Só Roberto Carlos rivalizava com ele em popularidade. De repente, a sombra de uma acusação de delator envolveu a carreira do "rei da pilantragem", que entrou em um exílio artístico, de onde nunca mais saiu. A obra de Simonal, contudo, se mantém cada vez mais moderna e viva, nas vozes dos filhos, também cantores, Simoninha e Max de Castro.

Quase uma personagem da peça, a cidade escolhida não poderia ser outra: o Rio de Janeiro com sua malandragem, seus célebres programas de auditório, suas lindas mulheres e a música que até hoje balança o Brasil. Rio, que é muito bem retratado nas projeções. O roteiro final foi sendo formatado no decorrer dos ensaios. Os autores fizeram toda a seleção do repertório, mas Pedro Brício fez sugestões juntamente com o diretor musical, Alexandre Elias. Algumas cenas de dramaturgia foram surgindo no ensaio, já que a música está diretamente ligada à encenação.

(Foto: Divulgação)

A vez de Ícaro Silva
O papel-título é interpretado por Ícaro Silva, que viveu nos palcos outro ícone da música brasileira, Jair Rodrigues, em “Elis, a musical”. Para concorrer ao papel-título, mais de mil atores mandaram material, sendo selecionados cem para as audições, onde foi escolhido o protagonista. E valeu a pena. Ícaro Silva dá uma mostra de que é, sim, um dos grandes nomes do teatro musical brasileiro da atualidade. Depois de arrebentar como Jair Rodrigues, ele conseguiu dar vida a Simonal sem nenhum traço do seu personagem anterior, o que poderia ser um risco. 

Com vigor e muito gingado, o ator dá vida ao cantor de forma esplêndida, com fôlego de sobra, mesmo após permanecer no palco durante todo o espetáculo. Ícaro conseguiu, de fato, retratar Wilson Simonal, sem ser caricato. Sua voz é o ponto alto, embalando o público de forma afinada e arrancando aplausos. Confesso que não esperava tanto. Me surpreendi. Me surpreendi a ponto de me apaixonar pela história de Simonal e querer me aprofundar em sua obra. Não demorei para baixar sua discografia.

(Foto: Divulgação)

Outros dois nomes que se destacam no musical são, sem dúvida, Victor Maia e Thelmo Fernandes. O primeiro, principalmente, por sua atuação como os cantores Eduardo Araújo e Roberto Carlos. Victor Maia, além de um grande coreógrafo, mostrou mais uma vez no palco que é um ator completo. Foi dele um dos momentos mais cômicos do musical. Na pele de um Eduardo Araújo ainda novo e “caipira”, Victor arrancou risos da plateia e promoveu um verdadeiro espetáculo ao interpretar o hit “O Bom”. 

Já Thelmo Fernandes é a revelação do espetáculo. No palco, ele dá vida ao polêmico Carlos Imperial. É dele, a responsabilidade de narrar o espetáculo. O que mais chama a atenção é que a narrativa não se torna chata, ou com “ares de enciclopédia”, mas sim, inserida no espetáculo, na fala do personagem, como se ele estivesse, realmente, ali, conversando com a plateia. Como ator e jornalista, eu particularmente tenho um certo temor com narrações em musicais.

Ascensão e queda de um astro
A trajetória de Simonal não encontra paralelos na história da música brasileira. O prólogo parecia ser comum: garoto pobre tem que batalhar muito para conseguir mostrar o seu talento. Mas, no momento em que foi descoberto por Carlos Imperial, ele explodiu. O Brasil inteiro cantou "Balanço Zona Sul" (seu primeiro sucesso), "Sá Marina", "País Tropical", "Meu limão, meu limoeiro", "Lobo bobo", "Mamãe passou açúcar em mim", todas presentes no roteiro do espetáculo.

(Foto: Divulgação)

Na década de 60, Simonal era um astro da televisão e do rádio e apontado por muitos como o maior cantor brasileiro, com público e crítica a seus pés. Já no início da década de 70, sua carreira começou a se desestruturar: Simonal encerrou um contrato com a TV Globo, brigou com o Som Três e desfez o escritório da Simonal Produções. A gota d´água aconteceu quando ele, desconfiado do seu contador, pediu ajuda a amigos policiais (agentes do DOPS), que o sequestraram para que denunciasse quem o estava roubando na sua produtora. 

O episódio culminou na prisão do cantor, que, posteriormente, em uma cadeia de equívocos, foi acusado de delator a serviço da ditadura militar. Embora nada nunca tenha sido provado, Simonal dizia que até torturadores e terroristas foram anistiados, menos ele, que se transformou em um morto-vivo e foi condenado a um ostracismo artístico até sua morte, em 2000.

(Foto: Divulgação)

Com cenografia de Hélio Eichbauer, “S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal” ficará, de fato, marcado na história do teatro musical brasileiro. E que venham outros. É prazeroso acompanhar, ao vivo, uma história de um grande artista nacional, e ao mesmo tempo se divertir. Num clima colorido, alegre e espontâneo, como era o espírito de “Simona”, o espetáculo dá uma lição de como se deve fazer um musical nacional. Sem dúvida, como já dizia um dos seus sucessos, “fez o povo inteiro chorar”.

Ficha Técnica: 

Texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade
Direção Geral: Pedro Brício
Direção Musical: Alexandre Elias
Cenário: Hélio Eichbauer
Figurino: Marília Carneiro
Coreografias: Renato Vieira
Produção Geral: Luiz Oscar Niemeyer
Direção de Produção: Joana Motta
Patrocínio: Cielo
Apoio Cultural: Bolt e Taesa
Realização: Planmusic

Serviço:

“S’imbora, O Musical - A História de Wilson Simonal”

Quando: Temporada de 16 de janeiro a 12 de abril. 
De quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 18h.
Quanto: De R$ 80 a 90.
Onde: Teatro Municipal Carlos Gomes - Praça Tiradentes, 19, Centro - Rio de Janeiro.
Classificação: 12 anos.
Informações: 2232-8701
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