Transformação do Lollapalooza 2015: erros, acertos e dúvidas

por Marie Linhares


A experiência do Lollapalooza (Foto: I Hate Flash)

Quem vivenciou a experiência das edições anteriores do Lollapalooza Brasil, sabe que foi um ano atípico, sofrido e fraco para o festival. Atrações canceladas, substituições de última hora e a falta de sorte com a agenda de alguns candidatos ao line-up deste ano também fizeram com que o festival se transformasse em 2015. Ao mesmo tempo, foi uma das edições mais lotadas - quem estava no Autódromo no domingo não me deixa mentir - desde 2012, quando o festival aterrissou no Brasil trazendo Foo Fighters e Arctic Monkeys como headliners e lotou o Jockey Club de São Paulo. Há quem diga que no sábado (28), haviam 66 mil presentes e no domingo (29), 80 mil.

O schedule estava sofrível para quem é mais eclético mas para o público mais "alternativo" - muito associado e representado no festival - não tinha muitos conflitos. Não foi dolorido fazer escolhas ou simplesmente não conseguir assistir o show completo de uma banda por estar no percurso para chegar ao palco. Os conflitos Jack White x Bastille e Robert Plant x Marcelo D2 mostram como o Lolla teve uma de suas edições mais ecléticas e menos "alternativas" de todos os tempos. 

Pharrell Williams (Foto: Divulgação)

Os públicos de alguns artistas quase não conversavam entre si e o público do festival tornou-se mais híbrido por conta dessa mistura no line-up, o que acaba tendo seus prós e contras. Quem está ali praticando um schedule mais específico acaba expandindo os horizontes. Sem dúvidas, foi a edição mais pop de todos os tempos aqui no Brasil. Este ano, atrações como Pharrell Williams e figurinhas repetidas como Skrillex e Major Lazer deixaram bastante claro que a alma indie e alternativa do festival está se esvaindo.

A bandeira brasileira foi representada por atrações muito bem escolhidas (finalmente um salve pra curadoria!) conquistando um espaço cada vez maior no line-up. Pra você que acha chegar 12h não vale a pena, fica aí a dica: Far From Alaska, Baleia, Banda do Mar e Mombojó botaram o Autódromo pra ferver antes das 15h. 

Algo que intrigou muito foi o som cheio de falhas em performances como Interpol, Jack White e St. Vincent em oposição ao som impecável operando na máxima potência nos shows de Skrillex e Calvin Harris. Ficou um questionamento sincero: se algum show estivesse acontecendo no palco Skol enquanto ambos tocavam, o som teria vazado categoricamente. Seria um "pequeno" recado da T4F Parece que eles descobriram que atrações "dançantes" atraem um público mais substancial em números, o que acaba adicionando diversidade mas nem sempre qualidade, fica aí a dica. 

Robert Plant and The Sensational Space Shifters (Foto: MRossi)

Hora do "Reclame Aqui": pagar 10 R$ num copo de cerveja com 50% de espuma, num pastel de queijo murcho, pipoca ou mini-churros, 12,50 R$ em um hot-dog e 15 R$ em um x-burguer é inconcebível. No primeiro dia, filas grandes pra comprar mangos; no segundo dia, os ambulantes aceitavam apenas dinheiro (cheguei a ouvir de um deles que estavam proibidos de aceitar a moeda do festival!). O mango se desvalorizou em menos de 24h! Quem investiu na compra do câmbio, teve a dor de cabeça de se locomover diversas vezes até o bar (e andar bastante) para conseguir gastá-los.

Para quem andava muito pelo Autódromo, esse ano tinham muitas opções para passar o tempo, descansar, comer e se for do gosto do freguês, fazer compras. Uma montanha-russa, áreas de convivência/descanso e o Lolla-Market se destacaram. Os patrocinadores mandaram muito bem nas suas ativações de marca, tornando a experiência cada vez mais personalizada.

A entrada de um número maior de patrocinadores tornou as apostas no novo mais criteriosas (ou seja, menos arriscadas), o que acabou resultando na transformação do festival - que foi considerado um sucesso pela equipe de produção e realização. O Lolla perdeu seu caráter alt e apresentou um line-up repleto de atrações que visivelmente estavam ali para garantir a rentabilidade. Eu, que saí sem voz e com a cara inchada do Jockey em 2012 depois de dois dias de êxtase musical, este ano cheguei no hotel com a sensação de que podia ter sido melhor. 

(Foto: I Hate Flash)

É com tristeza que o Lolla sai do underground pro mainstream; um festival que sequer era transmitido ao vivo em 2012, hoje está sofrendo. Como colocou brilhantemente Fernando Augusto Lopes em sua resenha, "parece não haver espaço nem interesse de investidores em formular algo mais focado e enxuto, algo que eficientemente coloque interesses artísticos lado a lado com os mercadológicos, trabalhando juntos. Grana só há pra gigantismos."


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