‘O que o Mordomo Viu’ transforma o palco num verdadeiro manicômio

Por Rodrigo Vianna


Miguel Falabella e Arlete Salles estrelam "O que o Mordomo Viu" (Foto: Divulgação)


Ele está de volta. Depois do sucesso “Alô, Dolly!”, Miguel Falabella nos dar o ar da sua graça no espetáculo “O que o Mordomo Viu”, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro. Dessa vez não se trata de um musical, mas sim, de uma divertida e louca comédia, capaz de prender o telespectador do início ao fim. E para isso, não precisa de camisa de força. O próprio Falabella assina a direção e a versão brasileira da peça, que ficará em cartaz até 14 de fevereiro de 2015.

Com um enredo de fácil entendimento, texto leve, que aborda temas como sexo, poder, corrupção, mentiras e traições, com fartas doses de humor e ironia, “O que o Mordomo Viu” é mais uma grande obra com a assinatura de Falabella. Para o elenco, o ator convidou Arlete Salles, Alessandra Verney, Magno Bandarz e Ubiracy Paraná do Brasil. Mais um grande acerto. Se na temporada paulista coube a atriz Mariza Orth desempenhar o papel da Mirta, esposa do psiquiatra Arnaldo (Miguel Falabella), coube a Arlete Salles a dar vida à personagem no Rio.

(Foto: Divulgação)

Parceiros em muitos espetáculos consagrados, Miguel e Arlete nunca tinham dividido o palco. Para celebrar essa estreia, escolheram a comédia inglesa, na qual interpretam um casal que transita pelo universo farsesco do autor Joe Orton. Miguel já havia dirigido a atriz na comédia “A Partilha”. A dobradinha deu certo. Sem dúvida, os dois são o destaque do espetáculo, e Arlete, em sua melhor forma, nos delicia com um show de intepretação e delicadeza, mesmo no papel de uma ninfomaníaca à beira da loucura.

A peça tem as principais características da obra de Orton: a sagacidade subversiva, o humor negro, a capacidade de transformar situações trágicas em uma grande comédia, além da crítica ácida a valores e comportamentos do homem contemporâneo. Traz ainda todos os ingredientes de uma farsa: personagens cheios de manias, enredos tortuosos, confusão de identidades, portas batendo, roupas que desaparecem, entre outras.

(Foto: Divulgação)

O espetáculo, que estreou em 1969 no Queen´s Theatre, em Londres, narra a história do psiquiatra Arnaldo, que é flagrado por sua esposa Mirta em uma atitude suspeita com a secretária (Alessandra Verney). Para não ser pego em flagrante, Arnaldo forja uma situação e acaba provocando uma série de equívocos. A partir daí começa a confusão. E o que vem depois, só faz piorar a situação do protagonista. Da plateia, é impossível não se divertir entre uma piada e outra. Até mesmo os mais sérios se renderam à história. 

Da farsa à loucura
O jogo dos erros aumenta porque Mirta também tem algo a esconder: a promessa do cargo de secretário a Nico (Magno Bandarz), por quem está sendo chantageada. Como se não bastasse a confusão instaurada, a clínica passa por uma inspeção do governo liderada por Dr. Ranço (Marcello Picchi), atraindo ainda o detetive Matos (Ubiracy Paraná do Brasil) para uma investigação. O que antes era um consultório psiquiátrico, agora se transforma num verdadeiro manicômio.

(Foto: Reprodução/Internet)

Sim. “O que o Mordomo Viu” é um besteirol em todos os sentidos, mas com super produção, capaz de dar inveja a qualquer produtor ou diretor. Mas é justamente esse ingrediente que talvez faça do espetáculo uma boa escolha. O público está cansado de comédias vazias, sem histórias, e que pecam justamente por não possuírem um bom texto e a pitada certa de humor. Isso não acontece aqui. "O que o Mordomo Viu" não está aí para fazer sentido. Aliás, nem mordomo tem na peça.

Elementos de dois formatos aparentemente opostos surgem na peça: o improviso e o vaudeville. Enquanto os atores, especialmente Falabella, parecem livres para interagir com o texto, o vaudeville se apoia em atos contínuos, em que situações simultâneas exigem marcação exata: no mesmo momento em que um personagem sai de cena por uma porta, o outro aparece por outra, e as duas ações precisam acontecer em perfeita sintonia. Tem espaço para tudo, até mesmo para sair do personagem e brincar com o iluminador, que não respeitou o momento da cena.

Críticas políticas
Algo muito evidente no texto de “O que o Mordomo Viu” são as críticas à política e à corrupção, principalmente ao atual governo do Brasil. É comum, o público se deparar com citações à presidenta Dilma Rouseff e ao ex-presidente Lula. Uma das tramas principais é justamente o mistério que gira em torno de um pedaço da estátua do ex-presidente que tinha sumido após um acidente. E isso passeia por todo o enredo do espetáculo. Nada fica de fora. Mais uma sacada do autor.

(Foto: Divulgação)

Após um começo divertido, com ritmo e humor, o espetáculo perde um pouco a força no decorrer das cenas. Não é nada grave, mas talvez o fato de cada personagem seguir um caminho diferente, e se reencontrarem apenas no final, possa prejudicar a narrativa. E nessa altura do campeonato, eu ainda me pergunto: “por onde anda o bendito mordomo?”. Então, prefiro deixar a história fluir. Afinal, trata-se de um besteirol (no bom sentido), e como todo besteirol, não há regras.

“O que o Mordomo Viu” possui todos os ingredientes de uma brincadeira muito agradável. O texto aborda, com muito humor, as atitudes sociais em relação à sexualidade, como homens e mulheres se sentem e se comunicam, sobre seu desejo pelo poder e como lidam com ele. De fato, é o tipo de espetáculo ideal para o fim de semana, divertido e, ao mesmo tempo, audacioso. Apesar da origem inglesa, podemos encontrar vários elementos nossos. Louco é quem perder mais esse grande sucesso.

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica

Texto - Joe Orton 
Versão Brasileira e Direção - Miguel Falabella
Co-Direção - Cininha de Paula
Cenário - José dias
Figurino - Sônia Soares
Designer de luz - Aurélio de Simoni
Trilha Sonora - Leandro Lapagesse
Patrocínio – VIVO E PORTO SEGURO
Elenco:  Miguel Falabella, Arlete Salles, Marcelo Picchi, Alessandra Verney, Ubiracy Brasil e Magno Bandarz

Serviço 

“O Que o Mordomo Viu”

Onde:Teatro Clara Nunes - Shopping da Gávea (3º piso) | Tel.: (21) 4003-2330
Quando: Quinta e Sexta – 21h / Sexta e Sábado - 21h30/ Domingo – 20h 
Quanto: Quinta - R$ 100,00 | Sexta a Domingo - R$ 120,00
Temporada: De 31 de outubro a 14 de fevereiro/2015 |  Duração: 90 min.
Classificação etária: 16 anos
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