Christopher Nolan perde a mão em 'Interestelar'; Saiba mais!

Por Kelson Douglas

Cena do longa (foto: Reprodução / Internet)
“E se o mundo não corresponde em todos os aspectos aos nossos desejos, é culpa da ciência ou daqueles que querem impor seus desejos ao mundo“?

Carl Sagan, o cientista responsável pela frase a cima, passou boa parte dos seus 62 anos buscando entender melhor a imensidão do universo que margeia este planetinha carinhosamente apelidado por ele como “pálido ponto azul“. No entanto, com o decorrer da idade, o nova-iorquino percebeu também que, talvez mais importante do que saber sobre o espaço e o tempo, fosse mais urgente que a humanidade soubesse preencher seu espaço e tempo de forma mais harmoniosa por aqui mesmo, antes que este aqui fizesse parte do passado.

Não é exagero dizer que boa parte da exploração espacial se baseia na nossa incapacidade de administrar a Terra. Mesmo que os aspiradores de pó, os aparelhos dentários e até as palmilhas tenham surgido graças a ela, um dos maiores motivos para lançarmos toneladas de aço na órbita terrestre continua sendo achar um lugar para onde possamos migrar com toda a nossa insignificância quando tudo descambar de vez. E é este desejo que move a criatividade de vários escritores de ficção-científica desde que o mundo é mundo.

Um exemplo: a idéia de Interestelar (Interstellar, 2014), novo filme do inglês Christopher Nolan, começou a nascer em sua mente quando, aos 7 anos de idade, ele assistiu a uma sessão do clássico 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanely Kubrick. “Me lembro da sensação de grandeza e da experiência de sair para o espaço“, disse Nolan em uma recente entrevista para o Hollywood Reporter.

Garguntua - Buraco Negro (foto: Reprodução / Internet)
Assim como na adaptação cinematográfica de Kubrick (depois dê uma lida em nossa resenha do livro original), Interestelar tem como ponto de partida um misterioso achado, um buraco de minhoca que pode levar a raça humana para um reboot em outro planeta do lado de lá do universo. Com isso, cabe ao ex-piloto Cooper (Matthew McConaughey) e os cientistas Doyle (Wes Bentley), Romilly (David Gyasi) e Amelia (Anne Hathaway) tentar chegar até lá e descobrir se ele pode ser habitado pela nossa espécie ou não.

Da mesma forma como aconteceu em A Origem, Nolan descarrega na audiência uma saraivada de conceitos logo nos primeiros minutos para embasar suas futuras decisões de roteiro. Teoria da relatividade, teoria das cordas e mecânica quântica são alguns dos artefatos usados por ele para explicar como os astronautas irão alcançar e atravessar o tal wormhole, além de quais serão as implicações desta façanha. Por causa desta overdose de física, o diretor deixa o primeiro ato um pouco mais complicado do que deveria, porém, ao mostrar de forma prática quais seriam os resultados de toda esta aventura no espaço-tempo, a segunda parte da projeção cresce de forma exponencial, fazendo dela a melhor parte da produção.

É neste meio do filme que descobrimos o primeiro planeta de Interestelar e também o primeiro efeito das decisões dos heróis, quando Cooper e Amelia, ao lado do robô TARS (uma mistura de HAL 9000 e Marvin, de O Guia do Mochileiro das Galáxias), ao voltarem de uma rápida (e desastrosa) missão de poucos minutos, percebem que para Romilly, que aguardava em fora daquele ponto do espaço, a espera durou mais de 20 anos.

Atriz Anne Hathaway em cena no longa (foto: Reprodução / Internet)
Também neste segundo ato temos outros excelentes momentos da produção, como um onde vemos a reação de Cooper ao receber com décadas de atraso as mensagens enviadas por seus filhos e uma bela explicação de Amelia sobre o amor. Neste ponto é interessante perceber, ao analisar estas sequências e lembrar da filmografia do diretor, como Nolan nunca foi um sujeito muito bom em trabalhar com sentimentos mais profundos. E por isso a escolha do competente Matthew McConaughey para interpretar o protagonista se mostrou tão acertada.

Carismático como de costume, o ator (que foi escolhido pelo diretor por causa de seu papel no subestimado Mud) traz para a frieza do espaço um peso dramático bastante interessante. Desde a primeira parte, ainda na terra e com os filhos menores, até o angustiante final, McConaughey carrega nas costas boa parte do lado bom de Interestelar.

Ainda no lado positivo, temos o maestro Hans Zimmer, parceiro de longa data de Nolan, que ao mesmo tempo em que homenageia o clássico 2001 em seus arranjos, traz também umas constante rítmica poderosíssima para os momentos de tensão da trama. Graças à trilha de Zimmer e aos instantes sóbrios do diretor, conseguimos assistir algumas cenas de pura poesia, como a sequência em que Cooper deixa a fazenda rumando ao espaço embalado pela música e por uma brilhante contagem regressiva bem editada.

Infelizmente, assim como aconteceu em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Christopher Nolan perde a mão em vários trechos, principalmente na incabível resolução de Interestelar. Ao buscar um meio termo entre ciência e sentimentalismo barato, o diretor insere mais teorias na já intricada trama, transformando o filme em objeto feito para os PIMBAs de plantão, interessados apenas em dizer que entenderam toda a lógica do roteiro.

Parecendo se preocupar apenas em ser cool para o pelotão nerd, Nolan quase que entrega momentos de pura burrice, no maior estilo Prometheus, como naquele em que cria toda uma lógica física para um planeta feito apenas por água, mas não explica como um grupo de cientistas, armados com vários mecanismos, não previram que só tinha apenas líquido em sua superfície.

Talvez, e apenas talvez, depois de nos presentear com tantos momentos brilhantes ao longo de sua carreira, Christopher Nolan esteja entrando numa fase em que sinta que sua obrigação para com o espectador é sempre entregar algo memorável, cheio de reviravoltas e frases inteligentíssimas. De certa forma, em determinados pontos ele até que consegue fazer isso em Interestelar, mas não como antes. Às vezes, para um diretor acostumado à metralhar a audiência com várias sacadinhas interessantes, pode ser legal ficar um tempo sem preencher todos os espaços de uma projeção. Afinal, o universo é bem poderoso com seu silêncio.


(Fonte: Altamente Ácido)
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