‘Blackbird’ é para quem gosta de sair da zona de conforto

Por Pablo Pêgas


Una (Viviani Rayes) e Ray (Yashar Zambuzzi) em "Blackbird" (Foto: Divulgação)

Não posso dizer que me senti confortável e pude gentilmente apreciar a peça, não posso porque a proposta de "Blackbird" é o desconforto. Um cenário tomado por garrafas de plástico amassadas e papéis dobrados jogados ao chão, um latão entupido de lixo, moveis antigos e gastos, uma janela suja, uma iluminação geniosa que se modifica de acordo com as cenas e suas tensões variadas, a disposição da plateia que fica presa no palco.

Os atores, concentradíssimos, exalam uma ansiedade e um nervosismo dos seus personagens que falam o texto inteligente e bem costurado de forma rápida e dolorosa como se o que narrassem sangrasse, como se o texto os machucasse profundamente. "Blackbird" é uma peça onde o incomodo se faz presente não só para os personagens dessa história, mas também para nós que viramos testemunhas.

Existe somente uma porta naquela sala, somente uma entrada e saída, e dela entram Una (Viviani Rayes) e Ray (Yashar Zambuzzi) - com o passar da peça, me perguntava se eles conseguiriam sair de lá. O ambiente caótico e sujo reflete a história desses dois. O lixo acumulado reflete palavras guardadas já empoeiradas, frases não ditas por falta de oportunidade, por falta de tempo e de coragem. Tudo se acumulou todos esses anos. Una e Ray se conheceram anos atrás, quando ela ainda tinha 12 anos e ele já 40. Hoje, ela tem 27 e resolve procurá-lo após o trágico fim.

O texto nos faz pensar que foi um amor precoce desenvolvido e correspondido, um amor mal entendido, entretanto são tantas as surpresas do texto que somos levados a pensar em outras teorias. Pensamos ora se tratar de uma "Lolita" e ora pensamos num criminoso disfarçado de "Lobo Mau". Não sabemos qual versão é real, em quem acreditar, quais são os fatos verdadeiros, quem está mentindo nessa história. Ficamos sustentando duvidas até chegar o final e temos a maior das surpresas que poderá ser reveladora e abrir um caminho onde enxergaremos a real situação desses dois, ou não.

Blackbird é para aqueles que gostam de sair da zona de conforto, que querem uma peça pra refletir alem de só entreter. Quem se atrever a assistir, me diga qual versão você acredita ser a verdadeira história por detrás do texto: a Lolita sedutora, a chapeuzinho vermelho em perigo ou o perigoso caso de amor mal entendido entre uma adolescente e um homem mais velho? 

Serviço:

“Blackbird”

Quando: Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Até 23 de novembro
Onde: Casa de Cultura Laura Alvim, Avenida Vieira Souto – 176, Ipanema, Rio de Janeiro.
Quanto: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia)

Ficha Técnica

Elenco: Viviani Rayes, Yashar Zambuzzi e Bella Piero
Texto: David Harrower
Tradução: Alexandre J. Negreiros 
Direção: Bruce Gomlevsky
Direção de produção: Viviani Rayes
Produção executiva: Yashar Zambuzzi
Cenário: Pati Faedo 
Cenotécnico: André Salles
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Elisa Tandeta
Técnico de Luz: Rafael Tonoli 
Operador de Luz: Samuel Rottas 
Trilha original: Marcelo Alonso Neves
Assistente de direção: Francisco Hashiguchi 
Assistente de produção: Glau Massoni
Assessoria de imprensa: Alessandra Costa
Programação visual e fotografias: Thiago Ristow
Fotos de Cena: Thaissa Traballi
Realização: Rayes Produções Artísticas
Idealização: Te-Un TEATRO
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