‘Vianninha’ conta a extinção do homem comum de forma poética

Por Pablo Pêgas

Cena de “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum” (Foto: Divulgação)

"Me querem sem passado?

Onde é que eu vou botar meus pais?"

Toda a peça resumida nessa frase. O grande conflito de “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum” é onde colocar um casal de idosos que não podem mais trabalhar, possuem baixa renda e acabaram de perder a casa onde viveram por toda a vida. A peça conta a história de uma família de classe média baixa que como uma toalha imaginária sobre uma mesa na sala de jantar esconde as rachaduras e arranhões dos valores passados na infância e agora deturpados.

São cinco filhos e nenhum deles tem a condição financeira necessária para manter os pais, exceto uma das filhas casada com um "milionário", mas que não demonstra muita solidariedade. A família se vê obrigada a separar os pais até a solução ser providenciada. O patriarca, Souza, vai para São Paulo com uma das filhas enquanto a matriarca, Lu, permanece com um dos filhos no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, a situação vai se tornando cada vez mais delicada e insuportável. Agregar seus pais já idosos na sua rotina e na da sua nova família vai se transformando em um infortúnio.

A toalha imaginária sobre a mesa esconde por muito tempo as imperfeições de cada filho, que pouco a pouco vão se apresentando aos pais e a nós. - Surpresa! Os pais não conhecem seus filhos tão bem assim. - As verdades ditas e mostradas em hora de desconforto e raiva descontrolada atingem o âmago do patriarca e da matriarca como farpas retiradas da mesa. Vão sendo cogitadas várias outras soluções para o conflito, mas devido as circunstâncias dificilmente serão aplicadas.

 (Foto: Divulgação)

A todo o instante, nos angustiamos com a ausência da solução. O conflito segue rumo a um final trágico iminente até recorrerem a uma alternativa esquecida e que não nos deixa muito contentes. - Prepare-se para o riso e para o choro. O homem comum vai sendo esquecido, exilado e coberto por poeira como se fosse uma velha estátua fora de moda.

Elenco afinado
Além da peça ser boa, contamos com um elenco preparado que sabe ler um texto, mas acima de tudo, contá-lo. Eles nos contam a história sempre de um jeito saudosista, cômico e poético, que por vezes atenua o conflito aparentemente sem solução. A presença de um personagem/contra-regra vestido de palhaço também ajuda nessa atenuação. Todas as mudanças de cenas são intercaladas pela presença desse interessante personagem criado para a montagem que é o único a quebrar a quarta parede e se comunicar diretamente com a plateia, além de surpreendentemente assumir outras identidades, fazendo com que o "nível peça boa" que se mantem alto a todo o instante, alcance um nível mais alto!

 (Foto: Divulgação)

Me atrevo a dizer que, embora todo o elenco seja maravilhoso, o palhaço é a grande chave, o curinga, a imaginação pela a qual eu sai de casa para ir ao teatro. Eu gosto do cenário que ocupa as laterais do palco e assume papel de coxia, gosto do acumulo de memória, de todas as bugigangas guardadas que esconde os atores enquanto não estão em cena. O texto do mestre Oduvaldo Vianna Filho é fácil de acompanhar e vestiu como uma mão na luva com as ações propostas pela direção do grande Aderbal Freire-Filho e elenco.

Vale lembrar também que “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum” faz parte de um projeto de revitalização da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores), sendo a primeira peça de uma série de obras que serão encenadas. 

Ficha técnica:

“Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum”

Texto: Oduvaldo Vianna Filho
Direção: Aderbal Freire-Filho
Elenco: Ana Barroso, Ana Velloso, Beth Lamas, Cândido Damm, Gilray Coutinho, Isabella Camero, Isio Ghelman, Kadu Garcia, Luisa Arraes, Paulo Giardini e Vera Novello
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal
Direção Musical e Trilha Sonora: Tato Taborda
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Programação Visual: Cacau Gondomar
Direção de Produção: Lúdico Produções Artisticas
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