'Deus Não Está Morto' é filme para levantar da cadeira

Por Rafaela Sales

Cena do filme (foto: Reprodução/ Internet)
  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “God Is Not Dead”
  • Diretor:  Harold Cronk

Falar de religião é algo complicado. O cinema em sua história apresentou diversos pontos de vista acerca da fé, seja com Bergman em “O Sétimo Selo” ou Amenábar, em “Mar Adentro”“Deus Não Está Morto”, filme de Harold Cronk, coloca a questão sob os holofotes ao retratar a discussão entre um professor de Filosofia e um aluno universitário.

Ao entrar na faculdade, Josh Wheaton (Shane Harper) preenche sua grade curricular com uma matéria eletiva de Introdução a Filosofia. O responsável pelo curso é o professor Radisson (Kevin Sorbo), que constrói toda a primeira aula da cadeira tergiversando sobre a ignorância daqueles que ainda acreditam na existência de um Deus em pleno século XXI. Ateu escancarado, o educador insiste que todos os alunos escrevam três palavras em uma folha: Deus está morto. De acordo com Radisson, somente dessa maneira – ao se livrar de qualquer resquício teísta - é possível estabelecer um estudo objetivo da Filosofia.

O problema é que Wheaton, cristão convicto, é incapaz de negar suas crenças e realizar a tarefa que lhe foi pedida. O professor resolve então lhe dar uma escolha: convencer a turma de que Deus não está morto em três aulas, ou reprovar a matéria e perder a chance de cursar a faculdade de Direito que almeja. O que parece uma proposta interessante se transforma em piada em menos de quinze minutos. O espaço que o roteiro possui para provocar uma discussão inteligente é anulado pela previsibilidade. Josh é o católico perfeito: carrega uma cruz de prata no peito (sempre em foco), tem uma namorada loira, linda e beata (que ele conheceu em um grupo de igreja) e prefere colocar em risco a carreira acadêmica em prol de defender o Deus em que acredita.

A argumentação em sala de aula é nada mais do que o be-a-bá do debate religioso. O professor cita os maiores gênios da história, todos ateus, enquanto o aluno rebate os argumentos com citações da bíblia e perguntas como “de onde vem o Universo?”. Stephen Hawking é descreditado em segundos, com os méritos de seus anos de pesquisa jogados no ralo pela citação do matemático cristão John Lennox, “você não pode explicar o universo sem Deus”. Só isso. Ponto final.

Mesmo que desconsiderássemos a total falta de profundidade do debate em sala, o filme insiste em nos provar o quão raso é. A trama envolve, além da dupla de protagonistas, uma série de personagens secundários. Há uma blogueira frívola que descobre uma doença grave e revê suas convicções, o namorado da tal blogueira, um verdadeiro babaca que não pensa em ninguém além dele mesmo, e um catequizador africano que passa o filme inteiro repetindo o mantra “Deus é bom o tempo todo, o tempo todo Deus é bom”Completando o núcleo, há uma muçulmana expulsa de casa pelo pai após declarar que ama Jesus e crê nos ensinamentos da Bíblia, e um asiático que (também) se rebela contra o pai ateu e assume o cristianismo. Ou seja, nesse enredo completamente parcial, não há fé que não possa ser abalada pela doutrina cristã. A construção de personagens é falha, opta pela quantidade acima da qualidade. A forma que a estória encontra para conectar tantos papéis funciona como um band-aid para remendar o desleixo dos roteiristas.

“Deus Não Está Morto” lucrou 41 milhões de dólares durante seu primeiro mês em cartaz nos Estados Unidos, vinte vezes o custo do filme. O sucesso relativo da produção confirma a força do cinema com temática cristã, que teve alguns representantes em 2014, como “O Céu É de Verdade”, e volta os olhares das grandes produtoras para um mercado que se mostra promissor.

Se a miscelânea apelativa que envolve câncer, morte, demência, milagres, e afins não for o suficiente para fazer o mais fervoroso dos ateus se converter, não se preocupe, há um belo concerto de rock cristão preparado para fechar com chave de ouro o carnaval de clichês. Ao final da trama, talvez se rabisque em um papel as palavras “O Cinema está morto”, então voltamos a Bergman e – como um milagre - nos tornamos crentes novamente. 

Assista no player abaixo o trailer do longa:



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