'Getúlio' tem trama coesa e marca nova fase do cinema brasileiro

Por Rafaela Sales 

(foto: Divulgação)
    Ano de lançamento: 2014
    País: Brasil
    Língua: Português
    Título original: “Getúlio”
    Diretor: João Jardim

Brasileiro não confia totalmente no seu mercado audiovisual, isso já não é novidade pra ninguém. Adestrados a venerar as produções estrangeiras, a audiência brasileira está engatinhando rumo à apreciação do produto nacional. A história do ex-presidente Getúlio Vargas também não é nova pra ninguém, então, como agradar a plateia com um longa como “Getúlio”?

Ao invés de recontar uma história já conhecida, a trama parte de agosto de 1954, quando ocorre o atentado ao jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges). O episódio joga o governo de Getúlio (Tony Ramos) na berlinda, instiga tensão entre militares e civis e deixa no ar um clima de golpe militar iminente. Com a administração desacreditada, o então presidente entra em uma espécie de inércia. Além das diversas alegações de corrupção, o líder vê o governo enfrentar alegações relacionadas ao homicídio de um oficial da aeronáutica e atentado a um dos maiores jornalistas do país.

Não cabe a mim julgar o teor político do longa, que aborda questões como a estatização do petróleo brasileiro, a criação da Petrobrás e os motivos que levaram à permanência de Vargas no poder durante quinze anos. O que fica claro ao assistir “Getúlio” é: o cinema brasileiro está se solidificando. A trama é coesa e segura mesmo ao apresentar temas polêmicos. Se arrisca ao retratar uma das mais controversas figuras da história do país com olhos, por muitas vezes, tenros. Getúlio, no filme, é mais do que ditador. É um pai carinhoso, um homem incapaz de amarrar os cadarços dos sapatos e que faz questão de jantar feijão com arroz.

No papel do homem-título está um impecável Tony Ramos. Confesso ter perdido um pouco da fé no ator pós-Friboi, mas, me rendi ao que vi na tela. Visceral, Ramos constrói um Getúlio na medida certa. Da primeira a última cena, é impossível tirar os olhos da figura do ex-presidente. Méritos aos roteiristas, João Jardim, Tereza Moura e George Frota, que souberam alternar os momentos tensos com situações cotidianas, mais leves, possibilitando ao protagonista apresentar várias nuances do mesmo personagem. Se Ramos brilha, na contramão vem Alexandre Borges. O ator faz com que Carlos Lacerda, conhecido pela eloquência e personalidade, caia no precipício do exagero caricato. Os gritos enfurecidos de Borges tiram grande parte do crédito do jornalista, pivô do episódio explorado durante a trama. Apesar do tropeço de Borges, o elenco em geral é excelente, com destaque para Alexandre Nero e Daniel Dantas.

Em seu primeiro longa de ficção, João Jardim deixa rastros da tendência documentarista que lhe é característica (muito bem exercida, aliás, vide “Janela da Alma” e “Lixo Extraordinário”). Nomes da política são apresentados com legendas explicativas, episódios são decupados ao público e traços da vida pessoal de Getúlio são explorados. Vale ressaltar que a arma usada na cena em que o presidente se suicida é mesmo a arma manejada por Vargas. O filme superou toda e qualquer expectativa nutrida por mim, um drama potente, capaz de segurar o expectador na cadeira. Assim como o feijão do dia seguinte é sempre mais gostoso do que a recém-cozido, “Getúlio” enaltece uma história que todo brasileiro já conhece, e oferece uma narrativa insólita. Se o ex-presidente saiu da vida para entrar na história, “Getúlio” sai das salas de exibição para marcar uma nova, e promissora, fase do cinema brasileiro.

Assista no player abaixo o trailer do filme:




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