'Inside Llewyn Davis' traz encanto ao retratar o fracasso

Por Rafaela Sales

(foto: Divulgação)
  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Inside Llewyn Davis”
  • Diretor: Ethan Coen e Joel Coen


Do bairro de origem do grupo “Cat Mother & the All Night Newsboys” – o Greenwhich Village, em Nova Iorque – vem também Llewyn Davis (Oscar Isaac), um cantor frustrado que busca a chance de ganhar a vida através do folk, estilo musical que consagrou a banda conterrânea na mesma década de 60 em que se passa o filme. A história do músico, baseada no livro de memórias do cantor Van Rouken, “The Mayor of MacDougal Street”, é contada em “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum”.

Com um violão antigo debaixo do braço, e um casaco surrado que mal dá conta do frio do inverno nova-iorquino, Davis deixa o apartamento de um casal de amigos após mais uma noite dormida em um sofá emprestado. No primeiro de seus muitos azares, permite que o gato de estimação dos colegas fuja, e tem que carregar o bichano consigo durante sua jornada através da cidade. Com um violão antigo debaixo do braço, um casaco surrado que mal dá conta do frio do inverno nova-iorquino, e carregando o gato de estimação dos colegas, Davis se dirige ao apartamento de outro casal de amigos, aonde espera poder passar a próxima noite. Lá, é recebido por Jeane (Carey Mulligan), com quem teve um infortuno caso de uma noite. Furiosa, ela despeja nele um vasto repertório de insultos, que o músico ouve resignado, e tomado pela certeza de que faz jus a cada um deles.


(foto: Divulgação)

Seja no escritório do agente, morada de más notícias, ou numa reunião social, onde explode em grosseria, Llewyn parece lidar com a derrota quase que carinhosamente. Com a casualidade com que recebe um “bom dia”, Davis aceita o título de fracassado e suas variáveis repetidamente.  Em um das cenas mais marcantes do filme, o talento do músico é diminuído perante à opinião daquele capaz de vendê-lo ao público. É aí que nos damos conta de que, embora nos conquiste por meio das performances intimistas que apresenta no bar do bairro, o talento do cantor é nada mais do que medíocre, e incapaz de brilhar na movimentada cena do folk americano dos anos 60.

Oscar Isaac, guatemalteco até então sem muitos papéis de destaque, se rende à Llewyn Davis. Ora exposto através do nostálgico folk clássico, ora reservado ao encarar o pai condenado ao Alzheimer, Isaac carrega a peteca mais do que competentemente, dando vida ao personagem mais importante de sua carreira. A sempre elogiada Carey Mulligan é uma escolha certeira de Ellen Chenoweth, diretora de elenco, que também acertou ao apostar em Justin Timberlake e Adam Driver. Pra fechar a lista com chave de ouro, John Goodman encarna magistralmente um caricato cantor de jazz, com a marca registrada dos Coen.

A trilha sonora é um futuro clássico, daquelas que vale a pena comprar o CD assim que sair (uma boa pedida são as versões de “500 Hundred Miles”"Please Mr. Kennedy" e "The Death of Queen Jane"). Um pout-pourri de música clássica e folk, com direito à Beethoven, Bob Dylan e Gary Davis. A fotografia, de Bruno Delbonnel, responsável por filmes como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, é concorrente ao Oscar 2014. Não por menos. Com uma paleta fria durante todo o filme, é responsável por inserir o espectador no universo melancólico e derrotado do protagonista.

Os irmãos Coen nos deliciam com mais um anti-herói. Se Jeff Bridges dá vida ao vagabundo conformado em “O Grande Lebowski”, Oscar Isaac engasga com os últimos sopros da determinação de Llewyn Davis em prosperar. Em cada um de seus insucessos, o músico faz com que o espectador torça não só por ele, mas por uma vida menos complicada. “Inside Llewyn Davis” é uma ode ao desespero daquele que – apesar de talentoso – vai se ver pra sempre preso na cruel realidade dos que não conseguiram.

Assista no player abaixo o trailer do filme:



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