‘Cazuza - O Musical’ impressiona por semelhança ao poeta

Por Rodrigo Vianna

Cena de "Cazuza - O Musical" (Foto: Divulgação)

“Você está vivo: esse é o seu espetáculo!”. A famosa frase escrita por Cazuza traduz perfeitamente o mais novo musical inspirado em sua vida: “Cazuza: Pro dia Nascer Feliz – O Musical”, que está em cartaz desde o dia 4 de outubro, no Theatro Net Rio, em Copacabana, na Zona Sul carioca. Dirigido por João Fonseca, o espetáculo é uma biografia viva do cantor, sem deixar de fora seus principais momentos como o início da carreira no “Barão Vermelho” e a Aids. No entanto, sem dúvida, o musical impressiona pela semelhança vocal do protagonista Emílio Dantas com o cantor.

Do cenário aos atores, tudo parece se encaixar como uma grande poesia, assim como as canções de Cazuza. Logo no início do espetáculo, é impossível não se impressionar com a semelhança vocal do ator Emilio Dantas com o seu personagem. O Contracenarte teve a honra de conferir mais uma vez o musical, e teve a sorte de sentar ao lado da mãe do Cazuza, Lucinha Araújo, que estava acompanhada de uma amiga. O realismo era tanto, que Lucinha não escondeu a emoção mesmo após assistir os espetáculo várias vezes.

(Foto: Reprodução/Internet)

Cazuza morreu em 1990, e mesmo para quem não o conheceu ou não pôde vivenciar sua obra, o musical se torna uma obra viva. É impossível não se emocionar com a atriz Susana Ribeiro interpretando a canção “Codinome Beija-Flor”, no papel de Lucinha, no leito do filho no hospital em Boston. Seu sofrimento, sua luta e seu amor por Cazuza estavam ali, ao extremo, sem exageros. Até mesmo a sua morte foi tratada de forma sutil e poética, dando gancho para uma campanha em prol da Sociedade Viva Cazuza, administrada e idealizada por Lucinha há 23 anos.

O talento instintivo e avassalador, o temperamento explosivo, a linguagem única e libertária do cantor será contada pela primeira vez nos palcos, nas mãos do diretor João Fonseca, responsável pelo grande sucesso “Tim Maia”. Morto em 1990, aos 32 anos, no auge da carreira, foi alçado a precoce e definitivo mito no imaginário brasileiro. De forma ágil, a história avança a partir da virada da carreira do cantor até a descoberta de ser portador do vírus HIV. Nada foi deixado de lado.

(Foto: Reprodução/Internet)

O espetáculo reúne alguns dos maiores clássicos de Cazuza em carreira solo ou no Barão Vermelho, como “Pro Dia Nascer Feliz” e “Codinome Beija Flor”. Canções como ‘Bete Balanço’, ‘Ideologia’, ‘O Tempo não para’, ‘Exagerado’, ‘Brasil’, ‘Preciso dizer que te amo’, ‘Faz parte do meu show’ estão presentes no roteiro, que reserva espaço também para composições de Cazuza que ele nunca chegou a gravar, como ‘Malandragem’, ‘Poema’ e ‘Mais Feliz’. Todas as canções são interpretadas ao vivo, sob a regência do maestro Daniel Rocha.

O elenco é encabeçado pelo músico e ator Emílio Dantas, de 30 anos, que faz sua segunda incursão em musicais. Susana Ribeiro, Marcelo Várzea, André Dias, Fabiano Medeiros , Yasmin Gomlevsky, Thiago Machado, , Bruno Fraga, Bruno Narch, Bruno Sigrist, Saulo Segreto, Dezo Mota, Sheila Matos, Juliane Bodini, Oscar Fabião e Osmar Silveira completam a escalação. Dando vida a nomes como  Lucinha e João Araújo, Ney Matogrosso, Bebel Gilberto, Frejat, Caetano Veloso, Dé Palmeira, entre vários outros personagens que gravitaram no universo de Cazuza.

(Foto: Reprodução/Internet)

Cenário poético e limpo
Para a construção do texto, Aloisio de Abreu partiu das conversas com pessoas próximas a Cazuza e fez uma ampla pesquisa para a criação da estrutura dramática do espetáculo. A cenografia de Nello Marrese traz elementos fundamentais do universo de Cazuza. Construído basicamente por tablados de madeira e uma mesa de centro, ele se transforma em diversos ambientes, que apesar de não possuir cor ou outra característica real, é fácil de identificar. Assim como a cena do hospital, onde além dos palcos, está uma cama e alguns bancos. Nesse caso, menos é sempre mais.

O espaço cênico é formado por seis praticáveis que representam palafitas. O chão, areia. É a representação do Arpoador, um dos lugares preferidos do personagem. O único elemento fixo é uma mesa que se desdobra em diversas representações: bar, o quarto onde ele compunha (sempre usando uma máquina de escrever), hospital, e por aí vai. A banda fica ao fundo, por trás de um jogo de telões que ajudam a dar um toque moderno ao espetáculo. Nele são projetadas imagens feitas no computador como se fosse um grande videoclipe de quase três horas de duração.

(Foto: Reprodução/Internet)

A passarinha
João Fonseca nos apresenta um Cazuza espontâneo e brincalhão. Sem pudor, a peça aborda temas como drogas e a homossexualidade do cantor, que é marcada por romantismo em momentos de Cazuza com Ney Matogrosso e com Sérgio Maciel. Mas tudo com bom humor, e o astral característico do cantor. A dificuldade de Lucinha Araújo em aceitar que o filho era gay também é tratada na peça. Divido em dois atos, o espetáculo é um gostoso concerto, onde cada música traz uma emoção diferente, um olha diferente, um Cazuza diferente.

“Passarinha”, como Lucinha era carinhosamente chamada pelo filho, é a síntese da relação de amor entre mãe e filho. Por conter muitas tatuagens pelo corpo, o ator Emilio Dantas precisou usar uma base para esconder os desenhos, o efeito no palco ficou visível, e digamos um pouco estranho, mas nada que ofuscasse o brilho do seu personagem. Outra mancada foi em relação ao figurino usado pelo personagem João Araújo, pai do cantor, que vestia uma camisa de uma coleção atual de uma grife.

(Foto: Reprodução/Internet)

“Cazuza: Pro Dia Nascer Feliz – O Musical” é fascinante, sedutor, poético, engraçado, emocionante e fiel. Entre altos e baixos, mais altos do que baixo, o musical se firma com mais um grande marco do teatro brasileiro, com texto, história, criação e elenco nacionais. João Fonseca conseguiu se superar. Após “Tim Maia”, este é, de fato, o melhor espetáculo da sua safra (e olha que são muitos concorrentes). Vale a pena ver, rever, e sentir cada nota, cada letra, como se fosse a primeira vez. Em suma, o musical pode ser resumido com uma frase: “O tempo não para”.

Serviço

"Cazuza Pro Dia Nascer Feliz, o Musical"

Local: Theatro Net Rio - Rua Siqueira Campos, 143, 2º Piso, Copacabana
Telefone: (21) 2147.8060
Horários: Quinta e sexta - 21h; sábados - 18h e 21h30; domingo - 19h
Preços: Plateia - R$ 150,00; Frisas - R$ 150,00; Balcão - R$ 100,00
Vendas : www.ingressorapido.com.br / 4003-1212
Classificação etária: 14 anos
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto. Até agora, o melhor que eu li a respeito do Musical, o mais completo!

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