'O Dia em que Raptaram o Papa' é polêmico, atual e divertido

Por Rodrigo Vianna


Assista no player acima a cenas de "O Dia em que Raptaram o Papa"

Imagine se um dia você acordasse com a seguinte notícia: “O Papa foi sequestrado”. O mundo consideraria este como o maior crime da história, até mesmo o que não são adeptos ao catolicismo. Um mês após a visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro, pela Jornada Mundial da Juventude, o pontífice voltou a ser destaque na Cidade Maravilhosa, mas dessa vez, no teatro. O Contracen@rte conferiu no sábado (24) à apresentação de “O Dia em que Raptaram o Papa”, que está em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, na Zona Sul. 

Com admirável direção de Tadeu Aguiar e belo cenário de Edward Monteiro, “O Dia em que Raptaram o Papa” é um bom exemplo de que pode se fazer comédia no Brasil abordando um tema polêmico, mas não agressivo. Para os mais conservadores e religiosos, à primeira vista o espetáculo pode parecer um desrespeito à imagem do santo padre, mas não é. Pelo contrário. Com texto leve e uma mensagem politicamente correta, “O Dia em que Raptaram o Papa” conquista o público por unir três elementos básicos da arte de fazer rir: boas piadas, elenco afinado e direção aguçada.

(Foto: Reprodução/Internet)

Escrita por um dos maiores comediógrafos do país, João Bethencourt (1924-2006), “O Dia em que Raptaram o Papa” já passou por 42 países. A montagem de Tadeu Aguiar conta com nove atores, entre eles Rogério Fróes, Débora Olivieri, Marcos Breda, Renato Rabelo e Renan Ribeiro. A trama se passa em Nova York (EUA), numa visita do Papa Alberto IV à cidade, coordenada pelo Cardeal O'Hara, o santo padre sai anônimo pelas ruas e toma um táxi. O taxista judeu, Sam Leibowitz, ao perceber quem é o seu passageiro, o sequestra e o leva para sua casa, onde mora com a esposa e dois filhos. Com que objetivo? É só o começo das surpresas que a peça prepara ao espectador.

Tudo resulta numa grande confusão, que envolve desde os vizinhos aos chefes de Estado do mundo inteiro, em prol da paz mundial. O Papa parece gostar do “cativeiro” e até se torna fã da sopa da Sra  Leibowitz, e passa a apoiar o feito do taxista, que não pede joias e dinheiro em troca do resgato, mas um dia sem mortes no mundo. O espetáculo estreou na década de 70 no Rio fez um grande sucesso. “O Dia em que Raptaram o Papa” tem sido extraordinariamente bem sucedida no mundo todo. Quando encenada em Roma, o jornal do Vaticano, “Osservatore Romano”, dedicou uma página inteira sobre a peça e fez uma crítica extraordinária.

(Foto: Reprodução/Internet)

Elenco afinado
Todo ator sabe que se há um gênero mais difícil no teatro, esse é a comédia. Afinal, fazer o público rir pode parecer fácil, mas se torna um pesadelo se a piada não funciona e a plateia mantém o silêncio durante todo o espetáculo. “O Dia em que a Raptaram o Papa” não é o tipo de comédia onde você sai gargalhando do início ao fim, mas é daquela onde o humor inteligente prevalece e a qualidade impecável da produção ajudam a dar o tom da história. Em entrevista ao RJTV, da TV Globo, o diretor Tadeu Aguiar chegou a afirmar que parte do figurino veio direto da Itália.

Destacam no elenco Renato Rabelo (Rabino Meyer), Marcos Breda (Samuel Leibowitz),e Débora Olivieri (Sara Leibowitz). Para mim, nenhuma novidade. Ao ler na ficha técnica os nomes dos tres no elenco, já imaginava o que estava por vir. Juntos, os três apresentam excelente trabalho de composição. Cada um com característica forte, os atores não dão espaço para a dúvida e sustentam a história com maestria e sem caricaturismo (um grande vilão para quem se arrisca em fazer comédia hoje em dia).

(Foto: Reprodução/Internet)

Apesar de um personagem não tão expressivo, Rogério Fróes faz o dever de casa e nos presenteia com um Papa Alberto IV tão carismático quanto o real Papa Francisco. Já Renan Ribeiro (Irving Leibowitz) peca numa interpretação exagerada, destoando dos outros colegas de cena, deixando à mostra um pouco da sua inexperiência com o palco. Porém, nada que atrapalhasse o enredo e a velocidade do espetáculo. No seu conjunto, o elenco apresenta um trabalho bastante positivo e coeso.

Tadeu Aguiar, que desde 2011 dirigiu os sucessos de público e crítica “4 faces do amor”, “Quase normal” e “Oscar e a Sra. Rosa”, assume sua primeira comédia como diretor. A cenografia de Edward Monteiro é composta de 2 andares, conta com uma explosão em cena e um telão de 6 metros onde são projetadas imagens que se fundem com a cena. Aliás, no telão contamos com a participação de duas grandes atrizes já conhecidas do público, Françoise Fourton e Vanessa Gerbelli, que foi dirigida por Tadeu em outro grande espetáculo de sucesso de público e crítica, “Quase Normal”.

(Foto: Reprodução/Internet)

Já os figurinos são assinados por Ney Madeira, Pati Faedo e Dani Vidal, sendo que 3 deles – os figurinos de Rogério Fróes, o Papa - vieram de Roma, do Ateliê Tirelli, considerado um dos maiores ateliês de costura para Teatro, Cinema, TV e Ópera do mundo, com 14 Oscars na estante. Fernando Fortes é responsável pelo design de som e Tadeu Aguiar pela trilha sonora e produção geral, esta última em parceria com Eduardo Bakr. A coordenação de produção é de Norma Thiré.

Sucesso já na década de 70
Na década de 70, a comédia percorreu os palcos do Brasil, fazendo um enorme sucesso. É a peça brasileira mais exibida em todo o mundo, ocupando teatros de 42 países. Sua primeira montagem fora do Brasil ocorreu em 1974, em Zurich, onde foi apresentada mais de uma centena de vezes - superando qualquer outra peça já encenada no principal teatro da Suíça - e protagonizada pelo grande ator suíço Heiri Gretler.

(Foto: Reprodução/Internet)

]Devido ao estrondoso sucesso na Suíça, mais de 400 teatros alemães encenaram a peça na temporada de 1975, seguindo novas montagens em outros países, como Áustria, Itália, França, Espanha, Portugal, Grécia, Polônia, Argentina, Estados Unidos, Canadá e Israel. Até hoje, 34 anos depois de sua estréia na Europa, o texto é constantemente reencenado. De novembro de 2004 a maio de 2005 foi representado em Viena, dirigido e interpretado pelo astro Fritz Muliar, com enorme sucesso de crítica e público.

Quem foi João Bethencourt 
A dramaturgia de João Bethencourt explora a comédia de costumes - filão clássico do teatro brasileiro - aliada a uma visão crítica da temática abordada. A ação e diálogos que desenvolve em seus textos são de grande comunicabilidade e aceitação popular. Autor profícuo do teatro brasileiro, tem mais de 30 peças escritas e encenadas.

(Foto: Reprodução/Internet)

Destacam-se: Dois Fragas e um Destino, Como Matar um Playboy, Frank Sinatra 4815, O Crime Roubado, Mister Sexo, O Dia em que Raptaram o Papa, Bonifácio Bilhões, A Cinderela do Petróleo, Tem um Psicanalista na Nossa Cama, A Venerável Mme. Goneau. Além da sua impressionante penetração no mercado brasileiro, ele torna-se também um dos autores mais montados no exterior, sendo que O Dia em que Raptaram o Papa, teve mais de 40 encenações estrangeiras.

Serviço:

O Dia em que Raptaram o Papa

Local: Teatro Clara Nunes - Rua Marquês de São Vicente, 52 - Gávea
Tel.:(21) 2274-9696
Quinta, sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h
Espetáculo não recomendado para menores de 10 anos 
Em cartaz até 29/9/2013 
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