“Atreva-se” viaja no tempo e diverte público com roteiro noir

Por Rodrigo Vianna

Elenco de "Atreva-se" (Foto: Reprodução/Internet)

Mistério, suspense, humor e muito de cinema noir. Não, não estou falando de um filme, mas do espetáculo “Atreva-se”, dirigido pelo mestre Jô Soares, em cartaz no Teatro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Imagina transformar um palco de teatro numa grande tela em preto e branco e ali reunir personagens dignos de um produção de Hitchcock, mas com o humor afiado de Tarantino e uma trilha sonora a la “Psicose”. Assim é “Atreva-se”, que devido ao grande sucesso teve a temporada prorrogada até o dia 26 de maio.

Com um elenco que dispensa comentários, “Atreva-se” é uma comédia onde nada é exatamente o que parece ser. Numa atmosfera inspirada no antigo cinema noir, o espetáculo divide-se em quatro sequências de mistério e humor. Escrita por Maurício Guilherme, a história nos traz uma nova surpresa a cada virada da trama. No palco, os atores Marcos Veras, Júlia Rabello, Mariana Santos e Carol Martin protagonizam quatro histórias de épocas diferentes, cercadas de mistério e muito humor. Tudo ambientado numa soturna mansão.

(Foto: Divulgação)

Por um momento, podemos nos imaginar dentro de uma mansão mal assombrada. Com uma “lanterninha” (Mariana Santos) apresentando e fazendo a ligação da história, o primeiro episódio (“A mansão”) anunciado pela claquete é apenas uma introdução; o segundo e o terceiro, juntos (“O medo” e “O pacto”), a verdadeira ação; e o último (“De volta à mansão”), a desatinada conclusão, com todos eles coalhados de referências e citações dos anos dourados do cinema. É como assistir a um filme noir, só que nonsense.

A vida em preto e branco
Na verdade, o modesto texto não passa de uma desculpa para a produção que é cuidadosamente elaborada para a evocação daqueles tempos que hoje já são tratados como “de época”. No palco, tudo é preto e branco (ou cinza). Até mesmo os figurinos e os objetos de cena perdem as cores para dar o clima de cinema dos anos 40 e 50. Tudo graças aos trabalhos de Chris Aizner e Fábio Namatame, que assinam a cenografia e figurino, respectivamente. Com exceção da lanterninha, tudo no espetáculo é em preto e branco. Até mesmo as rosas ganham tons prateados.

(Foto: Reprodução/Internet)

No palco, o cenário remete a uma mansão que poderia servir muito bem como residência da família Addams. Em cada ato, um elemento cenográfico diferente. Como os quadros, o candelabro, o relógio na parede e até mesmo as janelas. O figurino também não fica para trás. Como o clássico vestido de noite de cetim branco que esculpe o corpo da estrela, e a implacável governanta de preto e pequena gola branca, obviamente capaz de fatídicas intrigas, entre os vários acertos. Todos os elementos são cuidadosamente voltados para aquele universo específico.

A história ganha ainda mais veracidade com a ótima iluminação de Maneco Quinderé, colaborando para as surpresas e os sustos da trama. E uma palavra especial merece a direção musical de Eduardo Queiroz que, desde o prefixo inicial da Twentieth Century Fox faz brilhante uso da memória dos mais consagrados compositores de música para o cinema. Toda essa equipe é reunida em torno da direção de Jô Soares, que percebeu o quanto ele podia aproveitar para se divertir e divertir o público com a linha paródica de interpretação com que podia fazer lembrar aqueles velhos tempos do cinema.

Mariana Santos: a revelação
Em meio a grandes nomes como Marcos Veras e Jô Soares, um aparece em destaque: Mariana Santos. Com quase 20 anos de carreira, atriz esbanja talento e render os momentos mais cômicos do espetáculo. Como a lanterninha, ela tem o papel de introduzir cada ato e interagir com o público. As cenas são hilárias. Mariana brinca com a plateia, sem ser ofensiva. Improvisa, sem ser caricata. Narra, sem ser cansativa. Tem espaço para tudo, até para uma “ola” improvisada, deixando o público, até então ainda um pouco tímido, no clima do espetáculo.

Com bom rendimento, o elenco de “Atreva-se” sensibiliza e mostra talento. Além de Mariana, Carol Martin também presta boa colaboração ao mais complexo trabalho de Júlia Rabello, a protagonista que atravessa gerações, e Marcos Veras, que empresta a sua veia cômica aos personagens dessa grande comédia noir.

O espetáculo começa com um corretor de imóveis (Veras) mostrando a uma empolgada cliente as maravilhas de uma velha mansão de construção clássica, em frente a um enorme parque municipal. Ela está ansiosa por assinar os papéis e ele diz acreditar que não haverá grandes impedimentos, uma vez que o imóvel teve apenas dois inquilinos antes dela. Antes de saírem, o corretor, num tom algo dúbio, deseja à sua cliente que ela seja tão feliz na mansão quanto os que ali um dia já viveram.

O Medo
A segunda cena, intitulada “O Medo”, se passa numa ensolarada manhã, no final da década de 20. Uma sóbria governanta cruza a elegante sala da velha mansão, cuidando de pequenos detalhes no ambiente. Lá vivem apenas um homem inseguro, preso a seus medos e a uma cadeira de rodas, e sua irmã, uma mulher segura e assoberbada pela tarefa de cuidar de tudo na vida dos dois. Ela precisa fazer uma viagem de negócios, o que a deixará longe de casa por alguns meses e seu amedrontado irmão não consegue conviver com a ideia de ficar ali, sozinho, por tanto tempo apenas em companhia de sua sinistra governanta.

(Foto: Reprodução/Internet)

Já em “O Pacto”, duas primas, agora moradoras da velha mansão, aguardam pela chegada de um antigo colega de juventude numa noite quente, no início da década de 40. Pelo que conversam, supõe-se que as duas tem algo tramado para quando chegar o visitante. Finalmente o aguardado amigo chega e as duas o recebem com ensaiado entusiasmo. Na verdade, os três estão ali para cumprir um pacto feito na tarde do dia de sua formatura. Eles se encontrariam, houvesse o que houvesse, trinta anos após aquele dia, para saberem os rumos de suas vidas.

Mas algo estranho aconteceu naquela mesma noite, durante o baile de formatura. E a simples menção desta data, causa uma desconfortável reação nos três. Reação que se explicará pelas misteriosas revelações que se seguem noite afora.

(Foto: Divulgação)

De Volta à Mansão
De volta ao tempo da primeira sequência (A Mansão), a nova inquilina tenta organizar sua mudança na velha mansão. Em meio a caixas abertas e objetos esparramados, recebe a visita do corretor, que aparece num gesto de cortesia. No rápido diálogo que travam, os dois fazem novas e surpreendentes descobertas a respeito de suas identidades o que deixa, com certeza, a plateia também bastante surpresa. “Existe um caldo cultural que acaba pegando o inconsciente coletivo de todo mundo, que passa por todas as gerações graças a televisão, que passa e repassa um monte desses clássicos”, disse Jô Soares ao site Globo Teatro.

(Foto: Divulgação)
Serviço:

"Atreva-se"

Quando: até 26 de maio
Onde: Teatro do Leblon - Rua Conde Bernadotte, 26, Leblon - Rio de Janeiro - RJ
Horário: quinta, sexta e sábado - às 21h, domingo - às 20h.
Ingressos: de R$50 a R$70 (inteira)
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