“Nós na Fita” volta com humor mais afiado e beijo na boca

Por Rodrigo Vianna

Leandro Hassum e Marcius Melhem (Foto: Ricardo Nunes/Divulgação)


Lá se foram seis meses desde que a dupla de humoristas Leandro Hassum e Marcius Melhem se apresentaram pela última vez com a comédia “Nós na Fita”. De lá para cá, os dois se dedicarem a projetos solos e outros trabalhos. Porém, a amizade entre eles permaneceu forte e, apesar de não atuarem mais juntos na TV, eles continuaram unidos. Atendendo a pedidos, os dois decidiram voltar com o espetáculo considerado sucesso de público e crítica. A reestreia de “Nós na Fita” aconteceu na noite de quarta-feira (17), no Vivo Rio, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Apesar do texto já um pouco conhecido do público, é sempre bom rever a dupla em cena novamente. Leandro Hassum e Marcius Melhem parecem à vontade com o público, que aliás lotou a casa de espetáculos, brincam, improvisam e fazem de cada apresentação uma novidade. Diferente dos também bem sucedidos “Lente de Aumento”, de Leandro Hassum, e “Enfim Nós”, com Melhem e Fernanda Rodrigues, “Nós na Fita” mostra a essência da dupla, cuja química é perfeita a ponto de ambos improvisarem e até mesmo cortar uma cena ou outra em cima da hora, tudo sob aprovação do público, claro, que a essa hora já parece seduzido.

(Foto: Ricardo Nunes/Divulgação)

Sucesso absoluto há mais de sete anos, “Nós na Fita” já foi assistida por mais de um milhão de pessoas somente na cidade do Rio de Janeiro. Sob a direção de Alexandre Régis, comediante experiente com mais de 30 anos de televisão, a dupla aborda com inteligência temas como casamento, futebol e carnaval. O texto explora o talento dos dois atores num formato de “Stand up comedy” e cativa a plateia pela relação direta entre os atores e o público. O improviso também é uma das armas dos dois atores para situações inusitadas propostas pela plateia.

A química da dupla foi descoberta inicialmente por plateias de apenas 120 pessoas. Em pouco tempo foi ganhando fama e teatros maiores, indo parar na TV. Primeiro com o quadro “Os seguranças”, do programa “Zorra Total”, da Rede Globo, e depois com “Os Caras de Pau”, agora um programa próprio na emissora. Leandro conquistou o “Prêmio Coca-Cola” de melhor ator em 1999 e Marcius o “Troféu Mérito de Ator Revelação” em 1992. O talento da dupla também foi constatado no “I Prêmio Zilka Salaberry” para teatro infantil, em que os dois dividiram o prêmio de melhor ator, na peça “Nós no Tempo”.

O antigo novo
A apresentação de quarta-feira teve de tudo um pouco: piadas já conhecidas, como a palavrão (aclamada e pedida pelo público), críticas à novela “Salve Jorge”, da TV Globo, e até mesmo uma manifestação contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pastor Marco Feliciano (PSC-SP). Durante a famosa cena do carnavalesco, Melhem, como o repórter, faz uma crítica ao deputado e em forma de protesto tasca um beijo na boca do amigo Leandro Hassum, que pareceu desconcertado, mas entrou na brincadeira. Tal atitude foi aprovada e aplaudida de pé pelo público do Vivo Rio.

A cena do carnavalesco, aliás, é uma das mais famosas e engraçadas do espetáculo. Não poderia ser diferente. Leandro Hassum interpreta um carnavalesco afeminado, que tenta explicar o enredo da sua história, no caso a Acadêmicos do Cubango, uma homenagem à cidade onde o ator mora, Niterói.

É hilário como o ator tenta justificar uma ala e até brinca com as cores da escola. Em seguida, ainda com clima de carnaval, eles ironizam os puxadores de samba, nem mesmo a famosa canção de carnaval da TV Globo escapou. A união perfeita entre samba e humor.

Fórmula de sucesso
“Nós na Fita” também repete a mesma fórmula de outros stand-ups. As inúmeras entradas dos comediantes é uma delas, mas é claro, aqui tem a cara da dupla, que brinca até na saída. As já tradicionais piadas com bairros e cidades longes também se fazem presente, na ocasião, os humoristas brincaram com as cidades da Baixada Fluminense, e como não poderia deixar de ser, Niterói e São Gonçalo também estavam lá. Aliás, se tornou quase que uma obrigatoriedade a presença dessas cidades no roteiros dos stand-ups. O problema é descobrir uma forma desse assunto não parecer velho.

(Foto: Ricardo Nunes/Divulgação)

Nem mesmo a novela das 21h da TV Globo, “Salve Jorge” escapou da língua afiada da dupla. Leandro Hassum roubou a cena mais uma vez ao falar da novela, que tem se tornado alvo constante nas redes sociais. Como a cena em que a personagem Raquel, interpretada pela atriz Ana Beatriz Nogueira, é morta pela vilã Lívia Marine, interpretada por Cláudia Raia. Hassum brinca com o fato da personagem estar falando ao celular em cena, com dificuldade para achar sinal, e entra no elevador, onde encontra a vilã já com uma seringa na mão. O acaso foi um bandejão para os dois humoristas.

“O público sempre cobra quando não fazemos um ou outro esquete. Existem alguns, como “Palavrão” e “Piadas de duplo sentido”, que nunca deixamos de fazer, e outros que, quando temos que cortar, encolhemos, como “Gente que cospe”, disse Leandro Hassum ao portal Globo Teatro, completando: “A vida hoje anda tão atribulada, que as pessoas pensam em se divertir, rir, e acho que o stand-up cumpre isso, com histórias familiares, cotidianas, diretas, com as quais o público se identifica”.

(Foto: Ricardo Nunes/Divulgação)

Homogêneo e criativo
Homogêneo e criativo, “Nós na Fita” agrada do começo ao fim. Entre tantas cenas, fica difícil saber qual quadro o público mais gosta. A qualidade entre eles é bem parecida. O diálogo entre os dois personagens em mais de dez “cenas” (capítulos) é recheado de causos, piadas e histórias do cotidiano. O autor, Marcius Melhem, é capaz de tirar de simples fatos, que passam desapercebidos, um olhar peculiar levando a uma identificação imediata do leitor. É inteligente e sarcástico. Uma ótima leitura de entretenimento e humor.
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!