'Batalha de Arroz num Ringue para Dois' é diversão garantida

Por Carlos Veranai

(Foto: Divulgação)

Escrito por Mauro Rasi em 1984, "Batalha de Arroz num Ringue para Dois" foi um dos maiores sucessos do dramaturgo. No espetáculo, Mauro Rasi solta o verbo despretensiosamente, a peça não tem outro objetivo a não ser a diversão, ele extrapola ao máximo os conflitos cotidianos. O relacionamento entre um casal é retratado como um eterno embate que, por vezes, pode até parecer em tons mais fortes, ou dilatado como se a gente estivesse vendo tudo por uma lente de aumento, mas não tenho dúvidas de que há sempre alguém na plateia que se vê neste casal.

Na primeira parte do espetáculo, o público acompanha o casamento dos personagens, para na sequência o público acompanhar as aventuras desse divertido casal nessas 4 bodas que se sucedem: Bodas do Ciúme mostra o início do amor, com crises de ciúmes infantis, quando ele, ciumento patológico, não desgruda dela. Nélio tem tanto ciúme de Ângela, que acaba inviabilizando a vida dela. Nem compra em supermercado ela consegue fazer, sem que o marido arrume confusão.

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Nas Bodas da Egolatria Nélio, o marido é pateticamente alucinado, preocupado com o mundo, não vê mais a mulher, lê jornal e relembra os escândalos políticos do país ignorando e sem escutar Ângela. Já as Bodas da Supressão apresentam a mulher insegura e atrapalhada, uma marionete que vai se quebrando em cena. Uma contradição entre o homem que vê defeito em tudo o que a mulher faz ou tenta fazer, mas sempre da forma mais educada e carinhosa.

Por último, temos as Bodas da Paixão, onde Ângela, desesperada, tenta salvar o casamento. Ouve falar que as gueixas são as melhores esposas do mundo. Ao chegar em casa, Nélio se depara com uma nova mulher, totalmente mudada: oriental e submissa.

(Foto: Divulgação)

Participações especiais
O espetáculo teve duas únicas montagens de muito sucesso, todas elas sempre com Miguel Falabella atuando e dirigindo, em 1984 ao lado de Bia Nunes e em 2004, com Claudia Gimenez e depois Claudia Raia. Nesta montagem, Miguel Falabella faz participação especial numa locução em off como importante personagem no texto: o Padre que celebra o casamento desse enlouquecido casal, assim como a atriz Heloísa Perissé, que também empresta sua voz para a participação como uma vizinha faladeira.

Talvez uma das fontes torrenciais de gargalhadas da plateia seja a crítica desenfreada ao machismo, tanto que não há quem fique sem se esbaldar de rir, como também quem não fique irritado com o tratamento peculiar que Nélio oferece à sua mulher. A figura feminina é achincalhada o tempo inteiro em cena, isso pode ser engraçado mais também incomoda bastante, porque por mais que o texto tenha sido escrito em 1984, essa condição de machismo se mantem muito atual.

(Foto: Divulgação)

A montagem
A direção de Jaqueline Laurence é correta, conseguindo tirar o melhor do texto e dos atores nos momentos certos. Ela consegue dar a agilidade necessária que o texto precisa, mas o que me parece seu grande mérito, é a direção dos atores propriamente dita, pois ambos tem estilos e tempos completamente diferentes, portanto seu grande mérito foi equalizar esta dupla, para um ganho do espetáculo como um todo.

O cenário e figurino de Ney Madeira, Dani Vidal e Paty Faedo são simples, porém funcionais e bonitos, assim como a luz de Aurélio de Simoni e a trilha musical de Alexandre Elias, esta porém pontuando ainda mais os momentos de crise deste casal. Mauricio Machado, (comemorando 25 anos de carreira) e Nívea Stelman executam com humor e competência as desventuras desse casal "louco". Nélio e Ângela, apesar de estilos de interpretações completamente diferentes, porém complementares, estão com rendimentos igualmente satisfatórios, destacando ainda o trabalho corporal de ambos, devido a ótima direção de movimento de Sueli Guerra.

A tradicional “DR”
Essa coisa de discutir a relação jamais sai de moda. Há uma insatisfação muito grande. Essa busca pelo príncipe encantado dos contos de fada é eterna. Vai sempre existir alguém procurando uma tampa para sua panela. O espetáculo atrai pelo tom de embate que o dramaturgo propõe para a vida a dois.

Esta montagem marca também o feito de ser a primeira obra de Mauro Rasi a ser montada após a sua morte, em 2003. Até então, seus pedidos de montagem eram negados por seus herdeiros; pesou na decisão a equipe formada para esta montagem e a determinação e histórico da produtora do espetáculo, a Manhas & Manias de Eventos. Portanto “Batalha de Arroz num Ringue para Dois” é uma bela ocasião para se homenagear, nos dez anos do falecimento de Mauro Rasi; genuíno dramaturgo autor de enormes sucessos do nosso teatro.
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