'A Família Addams' se despede com funk e gangnan style

Por Rodrigo Vianna



Assista no player acima a paródia "Addams Style" com o elenco de "A Famílía Addams"

Foi em clima de baile funk e gangnan style que “A Família Addams – O Musical” se despediu do público carioca na noite de domingo (7), no Vivo Rio, no Rio de Janeiro. O espetáculo se tornou um sucesso de público e crítica. Em cartaz na Cidade Maravilhosa desde janeiro, o musical ficaria apenas dois meses em cartaz e foi prorrogado devido ao grande sucesso. Todos queriam ver as bizarrices e atrapalhadas da família mais famosa do mundo. Após quatro meses de apresentação, “A Família Addams – O Musical” marcou a história dos musicais no Brasil e se tornou um marco.

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A noite era especial. O público mais uma vez lotou a casa de espetáculo e desde cedo formou uma fila do lado de fora. Muitos queriam tirar uma foto ou levar uma lembrancinha para casa. Aliás, como já havíamos comentado aqui, a lojinha oficial oferecia vários produtos com a marca “A Família Addams”, porém, em sua maioria, a preços salgados. Houve desconto, mas mesmo assim, um guarda-chuva não saia por menos de R$70, e a camisa masculina, R$50. Com poucas opções, a lanchonete do Vivo Rio também abusou nos preços.

Cena de "A Família Addams - O Musical" (Foto: Divulgação)

“Estou feliz por ter conseguido um ingresso para a última sessão. Foi difícil, porque nunca conseguíamos encontrar um bom lugar na plateia. E também tinha a questão dos preços. O musical é maravilhoso, de uma produção impecável, mas não justifica o preço que cobram por dez pães de queijo e pelo cachorro-quente. Eu queria muito levar uma lembrancinha do espetáculo, mas não dá pra pagar R$70 num guarda-chuva ou R$90 num jogo de copos. Acho que as produções brasileiras precisam pensar que fazem espetáculo para brasileiros”, disse a dentista Flávia Mendonça, de 28 anos.

O elenco que se apresentou foi o principal, com Daniel Boaventura e Marisa Orth nos pais de Gomes e Mortícia Addams. A dupla, aliás, estava em seu momento. Com entrosamento ímpar e piadas afiadas, os dois convenceram mais uma vez e mostraram porque são considerados grandes nomes do teatro brasileiro. O elenco conta ainda com Laura Lobo como a filha Wandinha e Gustavo Daneluz e Matheus Lustosa aprontam todas na pele do filho mais novo, Feioso. Já Iná de Carvalho é a Vovó Addams e Claudio Galvan é Fester, enquanto Rogério Guedes faz o mordomo Tropeço.

O final do espetáculo reservou muitas surpresas. Uma delas foi uma homenagem à toda equipe, dos camareiros à direção. Um a um, cada profissional se juntou ao elenco no palco e recebeu os aplausos da plateia. Após a leitura dos nomes de toda equipe, os atores Daniel Boaventura e Marisa Orth convidaram o público assistir a um vídeo no telão. Nele, elenco e produção dançam no palco num divertido baile funk. Em seguida, protagonizam uma paródia do sucesso “Gangnan Style”, aqui transformada em “Addams Style”. Um belo trabalho de edição e criatividade.

“Para quem não sabe essa foi a nossa última apresentação. “É uma benção muito grande poder terminar esse espetáculo numa cidade como o Rio de Janeiro, que nos recebeu tão bem. Foram grandes momentos que ficarão marcados, com certeza”, disse o ator Daniel Boaventura. Ao seu lado, a atriz Marisa Orth acrescentou: “É uma grande felicidade poder ver essa plateia lotada e terminar essa temporada dessa forma”, disse.

Humor macabro
Fazendo jus ao estilo do seu criador, o cartunista Charles Addams (1912-1988), a versão nacional de “A Família Addams – O Musical” mantém o tipo de humor mais próximo do macabro, do gótico e constante. De fato, a partir do macabro, Charles Addams tratou de temas sociais delicados, mas sempre presentes, como a diferença - afinal, o que é normal para uma família tradicional, certamente não é para os Addams e vice-versa. Basta observar uma fala de Mortícia quando interpela a filha Wandinha: "O que é normal para uma aranha é uma calamidade para a mosca presa na teia. O que então é normal?". Aliás, a trama central gira em torno do amor da primogênita dos Addams pelo “normal” Lucas, interpretado por Beto Sargentelli. 



Assista no player acima à apresentação de "Pra quem é Addams"

Com personagens tão carismáticos, que consideram dias chuvosos ideais para um passeio, o musical dá um passo adiante na evolução da família. Isso quer dizer que Wandinha cresceu, tornou-se uma adolescente e agora está namorando um rapaz muito certinho, cujos pais, Alice (Paula Capovilla, que interpretou Evita recentemente) e Mal (Wellington Nogueira, do Doutores da Alegria), são o ponto culminante da caretice. Disposta a levar o relacionamento adiante, Wandinha organiza um jantar para que as famílias possam se conhecer. O encontro entre pessoas tão diferentes resulta em um humor amalucado.

É neste ponto que o musical brinca com preconceitos e traz uma mensagem mais conciliadora. A montagem brasileira é semelhante à da Broadway, mas, claro, sempre há espaço para algumas brincadeiras locais. E elas, de fato, se espalham pela montagem, reforçando o humor. Em um determinado momento, por exemplo, Gomez e Mortícia se lembram da última peça a que assistiram, Morte e Vida Severina. "Rimos muito", diverte-se Mortícia. Em outro momento, Vovó, que é uma velhinha bem descolada, diz uma frase da moda: "Ah, se eu te pego...", em alusão à música “Ai se eu te pego”, do cantor Michel Teló.

Daniel Boaventura e seu 11º musical
Em seu 11º musical, Daniel Boaventura esbanja talento, criatividade e se torna, de fato, o destaque do espetáculo. Ele sabe dar o tom do humor e torna o texto mais fácil. Sim, o ator baiano nos oferece mais um grande personagem. Seu Gomez esbanja uma malícia típica latina, especialmente ao declarar o eterno amor pela mulher. Já Mortícia representa um desafio para Marisa Orth. Acostumada a papéis extravagantes, a atriz se vê forçada a baixar o tom, segurar as mãos e usar muito a expressão do rosto.

(Foto: Divulgação)

A comédia musical traz diversas canções e nelas se destacam Daniel Boaventura e Laura Lobo, ambos são experientes no gênero e talentosos. Daniel começou no musical “Os cafajestes” e esteve ainda em “My Fair Lady”, “Chicago”, “A Bela e A Fera” - para citar alguns. Laura, aos dez anos, já fazia “Les Miserables” e esteve em “O Mágico de Oz”, “O Despertar da Primavera” e “Cats”, entre outros. Essa dupla arrasa em cena e tem bastante participação no espetáculo. A versatilidade de Laura pode ser vista em canções como “Bom Caminho”.

Uma boa adaptação das piadas para o português, humor amalucado e inteligente, além da capacidade estar atento para piadas atuais. Esse é o segredo de “A Família Addams” para o humor funcionar tão bem. A temática é bem atual, abordando as diferenças num mundo onde cada um tem mais seu jeito de ser. O cenário é um show a parte. Além de macabro e com uma iluminação belíssima, lembram exatamente ao castelo da série e do desenho. As músicas são divertidas e fáceis de aprender, assim como a coreografia.

(Foto: Divulgação)

A Família Addams sempre tocou em várias questões sociais importantes, dentre eles, o conceito de uma família "diferente" do padrão que estamos acostumados. E aqui não é diferente. Capaz de agradar pais e filhos, “A Família Addams - O Musical” é obrigatório para quem cresceu com essa família, assim como também é obrigatório para quem procura por uma boa diversão em família. Valeu a pena assistir a esse espetáculo e relembrar a família mais esquisita que já tivemos o "desprazer" de conhecer.

Charles Addams
O musical A Família Addams é inspirado nas criações do lendário cartunista americano Charles Addams, que viveu de 1912 até 1988. Em 1933, quando tinha apenas 21 anos, sua obra foi publicada na The New Yorker, e ao longo de quase seis décadas, ele tornou-se um dos colaboradores mais queridos da revista.

(Foto: Divulgação)

Bizarro, estranho e macabro são palavras que têm sido usadas para descrever os quadrinhos de Charles Addams. No entanto, adjetivos como charmoso e encantador podem ser tão exatos para descrever o mesmo trabalho, bem como o próprio Charles. O estilo único de seus desenhos permitiu sua obra transcender e encantar milhões de fãs no mundo inteiro.

Charles Addams é mais conhecido por seus personagens, que vieram a ser chamados de A Família Addams e que já fizeram parte de vários programas de televisão, cinema e o musical da Broadway. Gomez, Morticia, Fester, Wandinha, Feioso, Vovó Addams e Tropeço já existiam em várias formas e aspectos nos quadrinhos de Addams que remonta à década de 30, mas não foram realmente chamados assim por ele até o início dos anos 60, quando a série de televisão foi criada. Surpreendentemente, os personagens da Família Addams aparecem em apenas um pequeno número de suas milhares de obras.

(Foto: Divulgação)

Mais de 15 livros de seus desenhos foram publicados em todo o mundo, incluindo a nova coleção, “A Família Addams: Uma Evilution”, a primeira história completa de “A Família Addams”, incluindo mais de 200 cartoons, muitos nunca antes publicados. A coleção também inclui a própria descrição de Addams de seus personagens, o que nos lembra de onde esses personagens estranhamente adoráveis vieram e, com isso, oferecer uma homenagem a um dos maiores humoristas da América.
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